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Os Centros Superiores

abril 30, 2012

Os “Centros Superiores” representam um conjunto de funções da consciência que extrapolam os estados mais comuns de ser e de perceber a realidade. O acesso pleno a essas funções permite que o indivíduo transponha seus estados comuns de percepção e compreensão da realidade, abrindo-o para uma nova forma de relação com o mundo que, dificilmente, pode ser comparada com a vida comum do dia a dia.

O fruto do acesso completo a esses Centros equivale ao que é chamado de “individualidade”, e que representa a expressão máxima do desenvolvimento que o ser humano pode alcançar. “Ao invés de uma atividade discordante e geralmente contraditória que nasce de diferentes desejos, existe um eu único, completo, indivisível e permanente; existe uma individualidade, dominando o corpo físico e seus desejos, capaz de sobrepujar tanto sua relutância quanto sua resistência. Ao invés de pensamento mecânico, há consciência. E existe vontade, isto é, um poder, que não é mais composto de vários desejos que pertencem aos diferentes eus, mas que nasce da consciência e é governada pela individualidade, ou por um único e permanente eu. Somente esse tipo de poder pode ser chamado de livre, pois ele é independente do acidente e não pode ser alterado ou dirigido por algo externo. […] Sua individualidade pode apenas crescer a partir de sua essência. Pode-se dizer que a individualidade de um homem é sua essência crescida e amadurecida. Mas para possibilitar que a essência cresça, é necessário, em primeiro lugar, enfraquecer a pressão constante da personalidade sobre ela, porque os obstáculos ao crescimento da essência estão contidos na personalidade.” (Ouspensky, 1993).

A terminologia relativa aos Centros Superiores foi primeiramente proposta por G. I. Gurdjieff e seus seguidores, e consiste em uma das bases conceituais da escola do Quarto Caminho. No entanto, o material prático relativo a esses estágios de desenvolvimento é escasso, o que dificulta uma abordagem que não seja exclusivamente teórica sobre esse assunto. Assim, foi elaborada uma metodologia de trabalho a partir dos princípios básicos apresentados por Gurdjieff, mas também, de algumas práticas originadas nas escolas sufis. O texto completo pode ser encontrado aqui: Centros Superiores.

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Celebração

abril 4, 2012

O tempo chegará
quando, com júbilo
você cumprimentará a si mesmo ao chegar
à sua própria porta, em seu próprio espelho
e cada um sorrirá diante do acolhimento do outro,
e dirá, sente-se aqui. Coma.

Você amará novamente o estranho que era você mesmo.
Ofereça vinho. Ofereça pão. Ofereça de volta o teu coração
para ti mesmo, para o estranho que te amou
toda a tua vida, aquele que te conhecia de cor
e a quem você ignorou em favor de outro.

Pegue de volta as cartas de amor da estante,
as fotos, os bilhetes desesperados,
descasque sua própria imagem do espelho.
Sente-se. Celebre sua vida.

Derek Walcott

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Perfeição

dezembro 29, 2011

 

“Durante milênios, temos vivido numa espécie de transe, encantados pelos poderes místicos da unidade de todas as coisas. Ajoelhados em nossos templos, ou buscando pela expressão matemática da ‘mente de Deus’, tentamos desesperadamente transcender os limites do meramente humano, procurando por uma perfeição que não encontramos em nossas vidas. Perdidos no fervor da busca, fechamos os olhos para nós mesmos e para o mundo a nossa volta, e deixamos de valorizar o que temos. Precisamos abraçar os ensinamentos de uma nova visão do mundo, onde o poder criativo da Natureza reside nas suas imperfeições, e não na sua perfeição; onde a vida, e mesmo a nossa existência, é frágil e preciosa. Dentro dessa nova visão, nosso conhecimento do mundo será sempre limitado. Não existe uma Teoria Final, apenas uma descrição cada vez mais precisa da realidade em que vivemos.” (Gleiser)

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Alma Pássaro

novembro 28, 2011

Para Alexandre

Por que não deveria a alma
Abrir as asas
Quando da Glória de Deus
Ela ouve o doce chamado:
“Por que você está distante, oh alma? Ergue-te até mim!”

Por que o peixe não nadaria rápido
Da terra seca para o oceano
Quando do oceano tão profundo
Ele ouve o som das ondas?

Por que não deveria o falcão
Voar de volta ao seu Rei
Quando do tambor do falcoeiro
Ele ouve “Retorna!”?

Por que não deveria cada homem e mulher
Começar a dançar como um dervixe
Ao redor do Sol da eternidade
Que salva da impermanência?

Que graça e que beleza!
Que presente para a vida! Que benção!
Se alguém não responde a isso,
Que tristeza, que sofrimento!

Oh, voe, voe, minha alma pássaro,
Voe à sua morada primordial!
Você escapou da prisão agora,
Suas asas estão abertas no ar

Oh abandone as águas salobras
E mergulhe na fonte da vida!

Adiante! Adiante! Nós estamos indo
E nós estamos voltando, oh alma,
Deste mundo da separação
Para o mundo da união,
Um mundo além dos mundos!

Quanto tempo ficaremos nesse deserto de areia
Como crianças construindo castelos
Perdidos nessas miragens?
Vamos tirar nossas mãos dessa areia
E voar para o mais alto dos céus,
Vamos voar para longe de nosso comportamento infantil
E nos juntar ao banquete dos adultos!

Responda, oh alma, a esse chamado
E afirme agora que você é o herdeiro do rei!
Você tem a benção da resposta.
Pois só você conhece o chamado!

(Rumi)

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A história de um dervixe

novembro 6, 2011

Um dervixe pobre e andarilho, que se parecia muito com um mendigo, um dia penetrou no palácio do califa, e na ausência dele, sentou-se, sem rodeios, no trono vazio.

Os guardas, adivinhando qualquer coisa incomum, e talvez até sobrenatural, não ousaram expulsa-lo. Chamaram o responsável pela guarda, que acorreu e perguntou ao homem em andrajos:

– Sabe que está ocupando o assento do glorioso califa, o Comandante dos Crentes?

– Sim, eu sei.

– E sabe quem é o califa?

– Eu sei, e estou acima dele.

O encarregado refletiu por um instante e então replicou, erguendo o tom de voz:

– Você perdeu a razão? Não sabe que acima do califa, não existe senão o profeta Maomé?

– Sim, eu sei.

– E sabe quem é o profeta?

– Eu sei,  e estou acima dele.

Os guardas pareceram escandalizados. Ergueram suas armas para abater o intruso, que parecia totalmente calmo e seguro de si.

O encarregado os interrompeu com um gesto e fez uma última pergunta:

– Não sabe que acima do Profeta não existe senão Deus?

– Sim, eu sei.

– E sabe quem é Deus?

– Eu sei, e estou acima dele.

– Acima de Deus? Você sabe o que está dizendo? Não existe nada acima de Deus!

– Eu sei – disse o homem em andrajos sem se mexer do trono. – E eu sou justamente esse nada.

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Não te rendas

outubro 5, 2011
No te rindas,
aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.

No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.

No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.

Porque la vida es tuya y tuyo
también el deseo
Porque lo has querido
y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor,
es cierto.
Porque no hay heridas
que no cure el tiempo.

Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas
que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia
y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.

No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga
y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día
es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora
y el mejor momento.
Porque no estás solo,
porque yo te quiero.

Não te rendas,
pois ainda estás em tempo
De alcançar e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos,
Liberar teus lastros,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Percorrer os escombros,
E descobrir o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E se cale o vento,
Ainda há fogo em tua alma,
Ainda há vida em teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu
é também o desejo
Porque tu hás querido
e porque te quero
Porque existe o vinho e o amor,
decerto.
Porque não há feridas
que não cure o tempo.

Abrir as portas,
Remover as fechaduras,
Abandonar as muralhas
que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o riso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda
e entender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo,
Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se ponha
e se cale o vento,
Ainda há fogo em tua alma,
Ainda há vida em teus sonhos
Porque cada dia
é um começo novo,
Porque esta é a hora
e o melhor momento.
Porque não estás só,
porque eu te quero.

Autoria: Mario Benedetti

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Estoicismo

setembro 19, 2011

O Estoicismo foi um ramo da Filosofia, que se baseava numa forma específica de viver a vida – dizia-se que uma pessoa deveria ser considerada um filósofo, não pelo que ela dizia e sim, pelo que ela era. Para esse ramo, a felicidade é conquistada por uma vida simples e harmônica em relação à natureza. Dava-se ênfase nos passos práticos através dos quais o estudante poderia confrontar os problemas da vida, e em especial, sua própria mortalidade. Abaixo dois fragmentos dessa Filosofia.

“Vivestes como se fôsseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis imortais. Ouvirás muitos dizerem: ‘Aos cinquenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos.’ E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o quinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!”
(Sêneca)

“O primeiro e mais necessário setor da filosofia lida com a aplicação dos princípios; por exemplo, ‘não mentir’. O segundo lida com demonstrações, por exemplo, ‘Como é que uma pessoa não deve mentir?’. O terceiro está preocupado com o estabelecimento e análise desses processos, por exemplo, ‘Como posso ter a certeza que isto é uma demonstração?’ O que é uma demonstração, o que é consequência, o que é contradição, o que é verdade, o que é falso? Se segue então que o terceiro setor é necessário devido ao segundo setor, e que o segundo se deve ao primeiro. O primeiro é a parte mais necessária e naquilo onde devemos nos apoiar. Mas nós revertemos a ordem: nos preocupamos com o terceiro e nele colocamos a totalidade da nossa preocupação, enquanto que negligenciamos completamente ao primeiro. É por isso que mentimos, mas estamos sempre prontos em demonstrar que o mentir é errado.”
(Epiteto)