h1

Gurdjieff

“[…] a religião é fazer. Um homem não pensa ou não sente apenas sua religião, ele a “vive” tanto quanto ele pode; de outro modo, não se trata de religião, mas fantasia ou filosofia. Agrade-lhe ou não, ele mostra sua atitude para com a religião por seus atos, e pode mostrá-la só por seus atos. Por conseguinte, se seus atos estão em contradição com o que a sua religião lhe pede, ele não pode afirmar que pertence a essa religião. A grande maioria das pessoas que se chamam cristãs não tem direito a esse título, porque não só não seguem os mandamentos de sua religião, mas parecem nem sequer suspeitar que esses mandamentos devem ser seguidos.

A religião cristã proíbe o assassinato. E todos os progressos que temos feito são progressos na técnica do assassinato, na arte da guerra. Como podemos nos dizer cristãos?

Ninguém tem o direito de dizer-se cristão se não cumpre, em sua vida, com os preceitos de Cristo. Um homem pode dizer que ele deseja ser cristão, se se esforça por cumprir estes preceitos. Se ele nem sequer pensa neles, ou se ri deles, ou se os substitui por qualquer invenção sua, ou simplesmente os esquece, não tem direito de chamar-se cristão.

Usei o exemplo da guerra porque é o mais impressionante. Mas, sem falar da guerra, tudo em nossa vida é exatamente da mesma ordem. As pessoas se dizem cristãs, mas sem compreender que não o querem, não podem, porque para ser cristão não é suficiente deseja-lo; é necessário também, ser capaz disso.

O homem, em si mesmo, não é um “eu”, ele é “nós”, ou mais precisamente, ele é “eles”. Tudo resulta disso. Suponha que um homem queira, segundo o Evangelho, oferecer a face esquerda, depois de ter sido esbofeteado na face direita. Mas é um só de seus “eus” que toma essa decisão, seja no centro intelectual ou no emocional. Um “eu” quer; um “eu” se lembra; os outros não sabem de nada. Imaginemos que a coisa se dê realmente: um homem foi esbofeteado. Pensam que oferecerá a outra face? Jamais. Nem sequer terá tempo de pensar nisso. Ou esbofeteará por sua vez, o homem que o golpeou, ou chamará a polícia, ou fugirá; muito antes que ele se dê conta do que fez, seu centro motor reagirá como de costume, ou como o ensinaram a fazer.

Para poder oferecer a outra face, é necessário ter sido instruído por muito tempo, e ter treinado com perseverança. Pois se a face é oferecida mecanicamente, isso não tem nenhum valor; o homem oferece sua face porque não pode fazer de outro modo.

– A oração pode ajudar um homem a viver como cristão? alguém perguntou.

– A oração de quem? replicou G. A oração dos homens subjetivos, quer dizer, os homens números 1, 2 e 3 só pode dar resultados subjetivos. Com suas orações, tais homens se consolam, sugestionam-se e adormecem. Esta oração não pode dar resultados subjetivos porque provém da auto-hipnose.

– Mas a oração em geral não pode dar resultados objetivos? perguntou outro.

– Já disse: depende de quem ora. Devemos aprender a orar exatamente como devemos aprender todas as outras coisas. Para aquele que sabe orar e é capaz de concentrar-se de forma adequada, a oração pode dar resultados. Mas compreendamos que existem diferentes orações, e que os resultados são diferentes. Isto é muito conhecido, mesmo pela liturgia ordinária. Mas, quando falamos da oração e de seus possíveis resultados, não consideramos mais que uma classe de oração – a do pedido; ou então, pensamos que o pedido pode se associar a todas as outras classes de oração. Evidentemente, isso não é verdade. A maioria das orações não tem nada em comum com os pedidos. Falo das antigas orações, algumas das quais são mais antigas que o cristianismo. Estas orações são, por assim dizer, recapitulações; ao repeti-las em voz alta ou mentalmente, o homem se esforça por experimentar todo seu conteúdo, com seu pensamento e seu sentimento. Além disso, o homem sempre pode compor orações novas para seu próprio uso. Dirá, por exemplo, “Eu quero ser sério”. Tudo depende da maneira como o dirá. Poderá repetir dez mil vezes por dia, mas se ficar perguntando a si mesmo quando tudo isso terminará, e o que terá depois para o jantar, isto não é orar e sim mentir para si mesmo. No entanto, estas mesmas palavras podem converter-se em oração, se o homem as recita assim: “EU” – e ao mesmo tempo pensa em tudo o que sabe sobre “Eu”. Este “Eu” não existe, não há um só “eu”, mas uma multidão de pequenos “eus”, reclamadores e briguentos. Entretanto, ele quer ser um verdadeiro “eu”; quer ser o amo. E se recorda da carruagem, do cavalo, do cocheiro e do amo. “Eu” é o amo. “QUERO” – e ele pensa no significado de “eu quero”. Ele é capaz de querer? Nele, constantemente, “isto quer” e “isto não quer” mas fará o esforço de opor a “isto quer” e “isto não quer” seu próprio “eu quero”, que está ligado à meta do trabalho sobre si. Em outros termos, tratará de introduzir a terceira força na combinação habitual das duas forças: “querer” e “não querer”. “SER” – ele pensará no que significa o “ser.” O ser de um homem automático, para quem tudo acontece e o ser de um homem que pode fazer. É possível “ser” de muitas formas. Ele quer “ser” não apenas no sentido de existir, mas em um sentido de grandeza, de poder com grandeza. Então, a palavra “ser” ganha peso, novo sentido para ele. “SÉRIO” – ele se interroga sobre o significado dessas palavras: “ser sério”. A maneira pela qual se responde é muito importante. Se compreende o que diz, se é capaz de definir corretamente o que quer dizer “ser sério”, e se sente que o deseja verdadeiramente, então sua oração pode ter resultados: primeiramente pode receber uma força que vem dela, em seguida, poderá mais freqüentemente notar em que momentos não é sério, enfim, terá menos dificuldade em vencer a si mesmo. Portanto, sua oração o terá ajudado a se tornar sério.

Da mesma maneira, um homem pode rezar: “quero recordar de mim mesmo”. “RECORDAR” – o que significa “recordar-se”? O homem deve pensar na memória – quão pouco se recorda! Como esquece com freqüência o que decidiu, o que viu, o que sabe! Toda sua vida mudaria se ele pudesse recordar. Todo o mal provem de seu esquecimento. “MIM MEMSO” – de novo, volta-se para si. De qual “eu” deseja recordar-se? Vale a pena recordar-se de si mesmo por inteiro? Como pode discernir aquilo de que quer recordar? A ideia do Trabalho: como chegará a ligar-se mais estreitamente ao Trabalho? E assim sucessivamente.

No culto cristão há inúmeras orações exatamente parecidas com estas, nas quais é necessário refletir sobre cada palavra. Mas, elas perdem todo seu alcance, todo seu significado, quando são recitadas ou cantadas mecanicamente.

Consideremos a oração bem conhecida: “Senhor tende piedade de mim”. O que isso quer dizer? Um homem lance um apelo a Deus. Não deveria pensar um pouco, será que não deveria fazer uma comparação, perguntar-se o que é Deus e o que ele mesmo é? Ele pede a Deus que tenha piedade dele. Mas seria necessário que Deus pensasse nele, o tomasse em consideração. Ora, será que vale a pena leva-lo em consideração? Que há nele que seja digno que se pense nele? E quem deve pensar nele? O próprio Deus. Vejam, todos esses pensamentos e muitos outros deveriam cruzar sua mente quando ele pronuncia essa simples oração. E são precisamente esses pensamentos que poderiam fazer por ele o que ele pede que Deus faça! Mas, em que pensa e que resultados pode dar sua oração se repete como um papagaio: Senhor tende piedade! Senhor tende piedade! Bem sabem que isso não pode dar resultado algum.”

Fonte: P. D. Ouspensky. 1993. Fragmentos de um ensinamento desconhecido. Pensamento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: