h1

Sobre o nosso modo de estar no mundo

 Resenha sobre o texto: Construir, Habitar, Pensar – de Martin Heidegger 

oiticica_a

Não é de hoje que se fala em crise habitacional, depois de mais de um século de experiências, erros e êxitos, o pensamento de Heidegger poderá ser de grande valor por nos trazer uma reflexão sobre a própria essência do habitar. Não se trata, portanto, segundo o que pode nos trazer tal reflexão, em simplesmente enumerar o déficit e propor a construção de habitações; a questão qualitativa, fundamental para a validade de um projeto no tempo, passa pelo conhecimento que o modo como construímos e habitamos é antes de tudo o modo de estarmos no mundo. Re-estabelecer uma ligação rompida entre o nós e a essência das coisas que nos rodeiam, ligação esta que é, no fundo,  uma ligação com a nossa própria essência, torna-se para Heidegger uma questão fundamental.

O habitar não se limita a uma habitação, no sentido de uma casa ou de um abrigo, mas estende-se na medida em que o espaço construído é palco para a vida. Habitamos a casa, a rua, o bairro, a cidade, habitamos também os espaços que surgem das relações que estabelecemos com os outros, habitamos nossos pensamentos e sentimentos, medos e aspirações. Habitar é a nossa forma de estar no mundo e a partir desta forma construímos a realidade que nos circunda. Deste modo poderíamos afirmar que a finalidade de todo construir é habitar.

Mas se da forma mais óbvia tomarmos a relação entre construir e habitar como uma relação meio-fim, Heidegger irá nos alertar que isso não é suficiente se desejarmos compreender suas relações essenciais. E será na busca daquilo que ele chama do vigor essencial de habitar e construir que ambos se apresentarão nas suas relações e significados mais profundos.

O meio de acessar o vigor essencial de alguma coisa está, segundo Heidegger, na própria linguagem que a representa.  Isso porque a nossa relação com as coisas permanece habitualmente em um nível cotidiano, imediato e superficial. Ao nos contentarmos com um modo habitual de compreensão vela-se a nós a natureza essencial das coisas; o que temos não é ainda de fato uma compreensão, mas uma pré-compreensão. Decorre desta pré-compreensão um discurso inautêntico que é perpetuado, passado adiante através do modo como nos comunicamos com o mundo e com os outros. O discurso inautêntico é tornado coletivo e perpetuado pelo consenso, a continuidade condicionada do discurso.  Assim temos que buscar dentro do inautêntico as reverberações do autêntico por nós mesmos encoberto, trazendo à tona o ser verdadeiro das coisas, e assim fazendo, re-velar em nós mesmos esta mesma autenticidade.

Mas esse caminho através da linguagem à essência das coisas não se dá, como pode-se pensar,  de uma forma interpretativa, ao modo de uma exegese literária, e disso Heidegger também nos alerta. O pensamento ocidental habituou-se a separar as propriedades sensíveis de uma coisa de “tudo aquilo que já pertence a sua essência reunidora e integradora, de modo que nos pareça como algo acrescentado posteriormente mediante uma interpretação”. O que ele quer nos dizer é que através deste processo é a coisa em si que se re-vela em sua essência.  Ao usar o exemplo da ponte, ele começa com uma determinada ponte sobre um determinado rio, e assim ele vai buscando na ponte o que é próprio ao ‘ser ponte’ e que encontraremos presente em todas as pontes, até chegar a uma idéia pura de ponte. Então a ponte se apresenta a ele como reunidora e integradora entre terra e céu, mortais e divinos, junto a si. Isso, ele quer deixar bem claro, não é a ponte enquanto símbolo de outra coisa, não é uma ponte metafórica, é sim a própria ponte, agora livre da redução significativa imposta pela pré-compreensão e pelo discurso inautêntico. A qualidade poética deste ir a fundo através da linguagem é a própria qualidade do questionamento autêntico, necessário para que agora a ponte se revele em seu vigor de essência.

Heidegger busca, desta mesma forma, abrir o caminho que se encontra obstruído, para pensar o habitar e o construir. Assim buscará na origem destas palavras a revelação de seu vigor de essência.

Da mesma palavra do alemão antigo, buan, que significa habitar, deriva a palavra construir, e também as palavras permanecer, morar, e ser. Assim habitar, em seu vigor de essência, revela a amplitude de seu significado. Não somente construir é habitar, habitar é a maneira pela qual somos sobre a terra, e mais, o homem é à medida em que habita.

Bauem, construir, é também proteger e cultivar. Estes dois sentidos distintos estão, portanto, contidos também em habitar. Mas o sentido de construir, enquanto habitar, se torna esquecido pela apropriação do cultivar e do edificar. O habitar, então, deixou de ser pensado em seu sentido pleno, como traço fundamental do ser-homem.  A linguagem nos auxilia em resgatar este sentido pleno ao nos mostrar a ligação entre o construir e o habitar, ao nos mostrar o habitar como o modo de estarmos sobre a terra e ao nos mostrar também que no sentido de habitar, construir é, ao mesmo tempo, cultivo e crescimento, nos mostra assim que habitar é edificar construções.  Enquanto nós não pensarmos deste modo, não compreenderemos o habitar e o construir em seu vigor de essência.  Nós não habitamos porque construímos, construímos à medida que habitamos.

No gótico habitar se liga a permanecer, de-morar-se, e também, estar em paz. Paz significa livre, preservado do dano, resguardado. Assim libertar é resguardar, livrar do dano devolvendo a coisa ao abrigo de sua essência. Habitar é, portanto, ser trazido para a paz de um abrigo, permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento.  Ser homem é habitar, no sentido de um de-morar-se sobre esta terra.  Estamos agora nos aproximando daquilo que Heidegger chama de unidade originária, ou o ‘pensar a simplicidade da quadratura’.  Habitar é resguardar a quadratura em sua essência.  A quadratura é o que reunirá e integrará o que foi fragmentado e separado na pré-compreensão. É o que ele vê quando transpassa a linguagem e re-vela as coisas em seu “vigor de essência”. Resguardar a quadratura é compreender e respeitar as coisas de modo a assegurar sua liberdade de ser. É um resguardo em quatro faces: 1. Salvar a Terra, deixá-la livre em seu próprio vigor; 2. Acolher o céu, permitir os ciclos, estações e o fluxo do tempo; 3. Conduzir os mortais, de uma boa vida para uma boa morte; 4. Aguardar os deuses, permitir a manifestação em nós dos mais elevados atributos.  Então a esse de-morar-se sobre a terra, sob o céu e como mortais diante dos deuses, devemos unir a esse sentido de resguardo, a preservação da quadratura nas coisas.

O texto nos fala de habitação para falar de uma coisa que é tanto dela  como de todas as outras coisas, a natureza de ser e o modo de estar no mundo. Ao buscar transpassar a barreira de nosso discurso inautêntico e alcançar as coisas em seu vigor de essência, ocorre que este mesmo vigor de essência também se revela em nós, porque o encobrimento não está de fato sobre a coisa-em-si, mas na nossa forma de vê-las. A quadratura, seja na re-velação da ponte, na do habitar, na da cabana ou de qualquer coisa, é o insight, a visão desobstruída que se apresenta agora na forma de um conhecimento unificador sobre nós e o mundo. “Reunir unificando na quadratura” é des-cobrir  o próprio propósito da existência.

O homem enquanto construtor deve pensar o construir a partir da essência do habitar, assim reunirá integrando na coisa construída a quadratura, propiciando assim estância e circunstância.  Se construir é cultivar a partir de uma estância (lugar) e circunstância (condições de existência), cabe ao construtor saber que, assim como elas são para o agricultor as condições geográficas, geológicas e meteorológicas, o construir não traz por si próprio o conhecimento e as técnicas necessárias para o sucesso de seu empreendimento. De pouco lhe servirá toda a teoria e conhecimento prévio se não estiver aberto e atento às condições locais que lhe propiciarão a construção de um espaço para a realização da vida, porque a estância receberá a obra conforme a adequação à circunstância. Assim a construção do lugar permitirá a preservação da quadratura, ou seja, a realização das coisas em seu vigor de essência. Habitar e construir acontecem, então, simultaneamente no mesmo espaço, enquanto abrigo à quadratura e abrigo ao homem.

O texto ao qual se refere a resenha: http://www.prourb.fau.ufrj.br/jkos/p2/heidegger_construir,%20habitar,%20pensar.pdf

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: