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Ouve o canto da flauta

junho 20, 2015

caligraphyOuve o canto da flauta, como ela conta uma história, queixando-se de separações, dizendo:

Desde que fui separada de meu leito de juncos, meu pranto fez com que homens e mulheres se lamentassem.

Desejo um peito rasgado pela separação, para que eu possa entoar a dor do amor-desejo.

Cada um que esteja longe de sua origem, deseja estar de volta àquele tempo em que estava unido a ela.

Em cada companhia emiti minhas notas queixosas; tornei-me consorte com o infeliz e com aqueles que se rejubilam.

Cada um tornou-se meu amigo a partir de sua própria opinião, nenhum procurou meus segredos dentro de mim.

Meu segredo não está longe do meu queixume, mas ao olho e ouvido falta a luz para apreendê-lo.

O corpo não está velado da alma, nem esta do corpo; ainda assim, a ninguém é permitido ver a alma.

O ruído dessa flauta é fogo, não vento; quem não possui esse fogo, possa ele ser nada!

É o fogo do amor que está na flauta, é o fervor do amor que está no vinho.

A flauta é camarada de cada um que foi separado de seu amigo: seus estridores romperam nossos corações.

Quem jamais viu um veneno e um antídoto como a flauta?

Quem jamais viu um amante mais sedutor e mais ansioso que a flauta?

A flauta conta sobre o caminho cheio de sangue e reconta histórias da paixão de Majnum.

Apenas para aqueles insensatos é este sentido confiado: a língua não possui nenhum freguês salvo o ouvido.

Em nossa aflição, os dias tornaram-se mal vindos: nossos dias viajam de mãos dadas com sofrimentos incandescentes.

Se nossos dias se esvaem – que se vão! – não interessa. Tu permaneces, porque ninguém é mais Santo que Tu!

Quem quer que seja um peixe, torna-se saciado com Sua água; quem não dispõe do seu pão diário, acha que o dia é longo demais.

Nada que seja imaturo compreende o estado do que foi maturado: portanto as minhas palavras devem ser curtas. Adeus!

Ó filho, rompe tuas cadeias e liberta-te! Por quanto tempo ficarás escravo da prata e ouro?

Se despejares o oceano num cântaro, quanto dele irá conter? A ração de um dia.

O cântaro, o olho de quem cobiça, nunca se enche: a ostra não se preenche de pérolas a não ser quando está contente.

Somente aquele cuja veste é rasgada por uma amor (poderoso) fica purgado da cobiça e de todo defeito.

Saudações, Ó Amor, que nos trazes bom ganho – tu és o médico de todos os nossos males.

O remédio de nosso orgulho e vaidade, nosso Platão e Galeno!

Através do Amor, o corpo terreno ascendeu aos céus: a montanha começou a dançar e ficou fraca.

O Amor inspirou o Monte Sinai, ó amante (de forma) que Sinai (ficou embriagado) e Moisés caiu num desmaio.

Estivesse eu unido ao lábio daquele que amo, eu também, como a flauta, contaria tudo o que pode ser contado;

(Mas) quem quer que esteja separado daquele que fala a sua língua, torna-se apático, embora possa possuir centenas de canções.

Quando a rosa se foi e o jardim feneceu, não mais ouvirás a estória do rouxinol.

O Amado é tudo e o amante (apenas) um véu; o Amado está vivendo e o amante é uma coisa morta.

Quando o Amor não cuida dele, é deixado como um pássaro sem asas. Pobre dele, então!

Como deveria eu ter consciência (de algo) antes ou depois, quando a luz de meu Amado não está nem à minha frente, nem detrás?

O Amor ordena que esta palavra seja conhecida; se o espelho não reflete, como é isso?

Não sabes por que o espelho (da tua alma) não reflete? Porque a ferrugem não foi eliminada de sua face.

Ó amigos, ouvi essa história: em verdade ela é a própria medula de nosso estado interno.

(Rumi, Mathnawi)

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