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De Heidegger a Suhravardi – trechos de uma entrevista com Henri Corbin

junho 21, 2015

Eu acredito que podemos assegurar o triunfo da hermenêutica, significando que aquilo que nós realmente compreendemos, não é nunca outra coisa que não aquilo no qual nós fomos provados (colocados à prova), aquilo pelo qual passamos, aquilo com o que sofremos e trabalhamos dentro de nosso próprio ser. Hermenêutica não consiste em deliberações sobre conceitos, é essencialmente um desvelar ou a revelação daquilo que está acontecendo dentro de nós, o desvelar daquilo que nos faz emitir tal conceito, visão, projeção, quando nossa paixão se torna nossa ação, é um passar pelas coisas ativamente, um esforço profético-poético.

O fenômeno do significado – e isto é fundamental na metafisica de “Ser e Tempo” (livro de Heidegger) – é a ligação entre o significador (aquele que confere significado) e a coisa significada. Mas o que faz esta ligação, sem a qual ambos (significador e objeto significado) permaneceriam simplesmente objetos de considerações teóricas? Esta ligação é o sujeito, mas este sujeito é a presença, presença do modo (nível) de ser para o modo de compreender. Presença, Da-sein (NT – Dasein é um termo cunhado por Heidegger em seu livro “Ser e Tempo” e foi traduzido de várias formas por diversos tradutores, sendo ´presença´ uma das traduções mais utilizadas, mas DaSein literalmente é Ser-ali, ou Ser/Estar-ali, Being-There, Ser no Tempo). Não quero retornar aqui a discussão sobre as razões que, na época, decidimos traduzir Dasein por realidade-humana (realité-humaine). Estou consciente da fraqueza dessa tradução, especialmente quando, por negligencia, o hífen é omitido. Da-sein: Ser-Ali (Estar/Ser-ali, Being-There), isto é entendido. Mas Ser-Ali, é essencialmente estar atuando (enacting = atuar/representar) uma presença, atuação/representação daquela presença através da qual e para qual o significado é revelado no presente. A modalidade desta presença humana deve portanto ser reveladora, mas de tal maneira que, em revelando o significado ela revela a si mesma, e é aquilo que é revelado. E aqui novamente estamos testemunhando a concomitância da paixão-ação. Resumindo, a ligação para qual a fenomenologia dirige nossa atenção é a ligação indissolúvel entre modi intelligendi e modi essendi, entre modos (níveis) de compreensão e modos de ser. Os modos de compreensão estão essencialmente de acordo com os modos de ser. Qualquer mudança no modo de compreensão é necessariamente concomitante as mudanças no modo de ser. (NT – ver a descrição desta relação entre Saber e Ser no livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido de Ouspensky cap. 4.)

Nós estamos agora tocando em uma diferença fundamental da passagem – “minha passagem” – de Heidegger para Suhravardi, diferença sobre a qual eu gostaria de concluir. Eu acabei de indicar como o uso da Chave Hermenêutica (clavis hermeneutica) que Heidegger nos propiciou, de maneira nenhuma implica em uma aderência à sua visão de mundo. A hermenêutica procede do “ato da presença” que está significada no Da, de Dasein; sua função é portanto iluminar como, ao compreender a si mesmo, o Ser-Ali humano situa a si mesmo, circunscreve o Da, o situs (local) de sua presença e desvela o horizonte que permanecia, até aquele momento, oculto. A metafisica dos Ishraqium (aqueles que fazem parte da Tradição Ishraq inicada por Suhravardi), e por excelência, daquela de Mulla Sadra (místico filósofo Iraniano do Sec.XVI / XVII), culmina em uma metafisica da Presença. Ao redor desse situs, Heidegger coloca toda a ambiguidade da finitude humanan caracterizada como um “Ser-em direção-a Morte”. Com Mulla Sadra, ou Ibn Arabi, a Presença como eles a experienciam neste mundo – como ela é desvelada pelo “fenômeno deste mundo” vivido por eles – não é aquela Presença cujo fim é a morte, um “Ser-em Direção-a Morte”, mas um “Ser-em Direção- ao Além-da-Morte” (Being-toward-Death e Being-toward-Beyond-Death). Podemos ver claramente que a concepção de mundo, a escolha filosófica pre-existencial, seja ela de Heidegger ou dos Místicos Iranianos, é ela mesma constitutiva do Da de Dasein, do ato de Ser-Ali presente ao mundo e suas variações. Daqui em diante, tudo que resta ser feito é segurar e pressionar esta noção de Presença o mais próximo e intencionalmente que nos for possivel. A que essa presença humana, este Ser-Ali, está presente?

Esta investigação iniciará com a gnose Ishraq. Eles distinguem o seguinte: existe um conhecimento formal que é a forma comum de conhecimento; é produzida através do intermédio de uma representação. E existe um conhecimento que eles designam como um conhecimento presencial que não passa pelo intermédio de uma representação, mas é uma presença imediata, aquilo através da qual o próprio “ato de presença” da alma faz surgir a presença das coisas, e faz presente para si mesma, não mais objetos, mas presenças. É o mesmo conhecimento que eles tipificam como conhecimento “Oriental”, que é ao mesmo tempo o amanhecer (ou madrugada) do Oriente do Ser sobre a alma ou o amanhecer da iluminação da alma sobre as coisas, que ela revela e na qual se revela a si mesma como co-presenças. É importante que sempre conservemos a significação original da palavra Ishraq, o amanhecer e o Oriente do corpo Celestial, o sol nascente. Mas aqui estamos lidando com um oriente que não devemos tentar localizar em nossos mapas geográficos; é a Luz do amanhecer, uma Luz anterior a tudo que é revelado, para todas as presenças, porque é ela que os revela, aquilo através do qual a Presença é.

Portanto, fará toda a diferença quando colocamos a questão da seguinte forma: quais presenças a presença humana torna presente para si mesma quanto atua sua própria presença? Em outras palavras, com quais constelações de presenças o Da de Dasein se circunda quando revela a si mesma para si mesma? A que mundos ela se faz presente em seu estar sendo-ali. Deveria eu me limitar ao fenômeno do mundo analisado em “Ser e Tempo”? Ou deveria eu intuir, aceitar e ampliar minha presença a todos o mundos e “inter-mundos”, como eles são descobertos e revelados a mim pela Presença “Oriental” de nossos Místicos Iranianos? Ao colocar esta questão, estou meramente ilustrando a diferença que salientei anteriormente. Se Heidegger nos ensina a analisar o Da de Dasein, o “ato de presença”, podemos ver que isto de nenhuma maneira implica que os limites do horizonte Heideggeriano impõe-se sobre este “ato de presença”. Por isso eu estava invocando o momento decisivo onde eu fui atraído para níveis da hermenêutica que não estavam contidos na Analítica Heideggeriana, e que estavam à minha disposição. Estou falando de uma dimensão do “ato de presença” no qual nós nos sentimos na companhia das hierarquias divinas de Proclus, o grande neoplatonista, assim como da gnose Judaica, da gnose Valetiniana, da gnose Islâmica. Dai em diante é o futuro ainda-por-vir (yet-to-come), e a dimensão do futuro, que está sendo decidido. Se o “ato de presença” é de fato o futuro incessantemente constituindo a si mesmo no presente, se o processo do vir-a-ser se constituindo como o meu Ser/Estar-Presente é dependente de meu ato de presença, então o que é este ainda-por-vir/vir-a-ser futuro? A escolha não pode ser evitada – a opção filosófica está lá muito antes do processo hermenêutico – pois esta escolha é decisiva: a hermenêutica somente a revela.

Texto completo http://www.imagomundi.com.br/espiritualidade/corbin_heid_suhr.pdf

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Ouve o canto da flauta

junho 20, 2015

caligraphyOuve o canto da flauta, como ela conta uma história, queixando-se de separações, dizendo:

Desde que fui separada de meu leito de juncos, meu pranto fez com que homens e mulheres se lamentassem.

Desejo um peito rasgado pela separação, para que eu possa entoar a dor do amor-desejo.

Cada um que esteja longe de sua origem, deseja estar de volta àquele tempo em que estava unido a ela.

Em cada companhia emiti minhas notas queixosas; tornei-me consorte com o infeliz e com aqueles que se rejubilam.

Cada um tornou-se meu amigo a partir de sua própria opinião, nenhum procurou meus segredos dentro de mim.

Meu segredo não está longe do meu queixume, mas ao olho e ouvido falta a luz para apreendê-lo.

O corpo não está velado da alma, nem esta do corpo; ainda assim, a ninguém é permitido ver a alma.

O ruído dessa flauta é fogo, não vento; quem não possui esse fogo, possa ele ser nada!

É o fogo do amor que está na flauta, é o fervor do amor que está no vinho.

A flauta é camarada de cada um que foi separado de seu amigo: seus estridores romperam nossos corações.

Quem jamais viu um veneno e um antídoto como a flauta?

Quem jamais viu um amante mais sedutor e mais ansioso que a flauta?

A flauta conta sobre o caminho cheio de sangue e reconta histórias da paixão de Majnum.

Apenas para aqueles insensatos é este sentido confiado: a língua não possui nenhum freguês salvo o ouvido.

Em nossa aflição, os dias tornaram-se mal vindos: nossos dias viajam de mãos dadas com sofrimentos incandescentes.

Se nossos dias se esvaem – que se vão! – não interessa. Tu permaneces, porque ninguém é mais Santo que Tu!

Quem quer que seja um peixe, torna-se saciado com Sua água; quem não dispõe do seu pão diário, acha que o dia é longo demais.

Nada que seja imaturo compreende o estado do que foi maturado: portanto as minhas palavras devem ser curtas. Adeus!

Ó filho, rompe tuas cadeias e liberta-te! Por quanto tempo ficarás escravo da prata e ouro?

Se despejares o oceano num cântaro, quanto dele irá conter? A ração de um dia.

O cântaro, o olho de quem cobiça, nunca se enche: a ostra não se preenche de pérolas a não ser quando está contente.

Somente aquele cuja veste é rasgada por uma amor (poderoso) fica purgado da cobiça e de todo defeito.

Saudações, Ó Amor, que nos trazes bom ganho – tu és o médico de todos os nossos males.

O remédio de nosso orgulho e vaidade, nosso Platão e Galeno!

Através do Amor, o corpo terreno ascendeu aos céus: a montanha começou a dançar e ficou fraca.

O Amor inspirou o Monte Sinai, ó amante (de forma) que Sinai (ficou embriagado) e Moisés caiu num desmaio.

Estivesse eu unido ao lábio daquele que amo, eu também, como a flauta, contaria tudo o que pode ser contado;

(Mas) quem quer que esteja separado daquele que fala a sua língua, torna-se apático, embora possa possuir centenas de canções.

Quando a rosa se foi e o jardim feneceu, não mais ouvirás a estória do rouxinol.

O Amado é tudo e o amante (apenas) um véu; o Amado está vivendo e o amante é uma coisa morta.

Quando o Amor não cuida dele, é deixado como um pássaro sem asas. Pobre dele, então!

Como deveria eu ter consciência (de algo) antes ou depois, quando a luz de meu Amado não está nem à minha frente, nem detrás?

O Amor ordena que esta palavra seja conhecida; se o espelho não reflete, como é isso?

Não sabes por que o espelho (da tua alma) não reflete? Porque a ferrugem não foi eliminada de sua face.

Ó amigos, ouvi essa história: em verdade ela é a própria medula de nosso estado interno.

(Rumi, Mathnawi)