Archive for outubro \31\UTC 2010

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Corra e olhe o céu

outubro 31, 2010

O real trabalho pertence a aquele que deseja o amor
E se afasta de qualquer outro trabalho.
O resto assemelha-se a crianças brincando juntas até o final da tarde
Destes curtos e poucos dias.
Ou como aqueles que acordam e levantam, ainda sonolentos,
E então são conduzidos de volta ao sono
Pelo cantarolar de uma babá malvada:
“Volte a dormir meu querido – não deixarei que ninguém te perturbe.”
Se você for sábio, você mesmo
Irá rasgar seu torpor pelas raízes
Como o homem sedento que ouve o som da água.
O amor diz a você, “Eu sou o som da água
Nos ouvidos de quem tem sede;
Eu sou chuva caindo do paraíso.
Brote, amante! Mostre algum entusiasmo!
Como você pode ouvir o som da água e então,
Voltar a dormir?”
Tudo o que é feito belo, encantador e adorável
é feito pelo olho daquele que vê.
(Rumi)

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O Corredor da Loucura

outubro 10, 2010

A pessoa não pode considerar a vida como um privilégio, mas sim como um direito a ser adquirido e conquistado. Somos o produto de um processo evolutivo de milhões e milhões de anos, onde cada etapa foi conquistada a partir da extinção da anterior. Nossa história biológica nos conta a infinidade de indivíduos que pereceram antes de nós – por que deveria uma pessoa considerar que com ela, apenas, as coisas serão diferentes?

A vida é um bem perecível, algo que, como a água, nos foge por entre os dedos por mais que tentemos segurá-la. Para uma pessoa, a vida é algo precioso e limitado. O maior pecado que uma pessoa pode fazer contra si é manter a ilusão de que a vida é eterna, e que sua morte irá acontecer num futuro tão remoto que lhe é permitido esquecer que um dia, ela não mais existirá.

A Vida é o corredor da loucura; o Trabalho é o Corredor da Loucura. A distinção entre uma e outra categoria reside no seu produto final. A vida é o túnel que conduz à extinção do ser, a ausência absoluta de oportunidades para evoluir. A realidade da vida, tal como a conhecemos normalmente nada mais é do que um sono, um ensaio para a morte. Para conseguirmos tal objetivo, basta sentar e esperar… as coisas já estão devidamente arranjadas para que se atinja isto.

O Trabalho é a vida dedicada à luta para se evitar este final obsceno. O Corredor da Loucura, neste caso, não conduz à tumba, mas sim à liberdade e aumento dos níveis de oportunidades que dispomos atualmente. Mas, para isto, devemos assumir a posição correta frente à vida: seremos nós meros espectadores de uma tragicomédia que ao seu final tem como resultado um teatro vazio? Ou seremos os guerreiros de uma tenacidade inigualável, que fará o obscuro teatro da vida se transformar num cenário universal, no qual os espectadores se tornam atores?

Uma pessoa escolhe se quer ser um espectador ou um guerreiro. O espectador quer apenas se divertir, passar o tempo e procurar o lazer, cometendo o maior dos pecados: ele assume que haverá um amanhã. A pessoa poderá, ao invés, escolher uma vida de guerreiro e entrar destemidamente no Corredor da Loucura, pronta, alerta e disposta a enfrentar o desconhecido e os terrores que tal decisão acarreta. Uma pessoa que assumiu tal postura deve conhecer as propostas básicas do guerreiro. Primeiro ela deve se levantar como um guerreiro para enfrentar qualquer que seja o desafio, sem se preocupar com as coisas rotineiras, que a colocam na posição de espectador.

Além disso, deverá ter em mente que um guerreiro estará sempre pronto a se defender para sobrepujar suas dificuldades e adversários. Ao mesmo tempo, deverá compreender o suficiente do Trabalho para que esteja sempre disposto a sacrificar a sua própria vida se isto lhe for solicitado. Um guerreiro sem uma Causa não pode verdadeiramente ser chamado de guerreiro – será no máximo um mercenário.

O campo de expectativas de uma pessoa que é mera espectadora da vida, que está se encaminhando pelo corredor da loucura em direção à extinção, é representado pelo passado de culpas e pelo futuro de ansiedades. Já o de um guerreiro em plena batalha no Corredor da Loucura é meramente o presente; ele esquece do seu passado e não vê um futuro pela sua frente. Ele tem de se manter vivo no momento atual e é nesse momento que ele forja as oportunidades do futuro e sana os erros do passado – para o guerreiro, este é o único momento em que ele pode agir e definir algo.

Uma pessoa que assume a total responsabilidade sobre si mesma tem de compreender que toda a vida é sagrada, porque em si mesma, cada vida, por mais elementar que pareça aos nossos olhos, é um milagre em contraposição ao caos e à entropia. Cada vida apresentará sempre um número finito de oportunidades evolutivas e a pessoa não tem o direito de negar uma única oportunidade sequer contra esta vida.

Normalmente a pessoa não consegue, em função das próprias exigências do cotidiano, assumir uma postura de guerreiro continuamente. Ela alterna repetidamente estados em que é ora um espectador, ora um guerreiro. É função desta pessoa verificar para que lado da balança pende cada um de seus estados. No final do dia torna-se necessário fazer-se um inventário para se verificar se o espectador predominou sobre o guerreiro. Se isto aconteceu, cumpre punir o nosso ser através de alguma prática ascética, tal como meditação, oração e privação de sono. Se houve predomínio do guerreiro, cumpre premiar o nosso ser, através de alguma meditação, oração ou privação do sono para reforçar a nossa capacidade de vigília. A diferença entre as práticas está na razão de seu uso: uma pune, a outra premia. As falhas e as derrotas ocorrem principalmente pelas omissões e suposições feitas pela pessoa durante o seu processo de formação como guerreiro. Portanto é mais sensato procurar analisar a si mesmo pelo aspecto crítico, do que pelo aspecto de complacência e auto-elogio.

Fonte: “As Cartas” de G. I. Gurdjieff