Archive for setembro \27\UTC 2010

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Raízes

setembro 27, 2010

“As coisas da gente a gente tem que conservar, a gente tem que saber a origem delas…você ouvir sempre todo mundo dizendo assim ‘…ah! isso aqui não tem memória…Brasil não existe, Brasil não tem tradição, não tem história, não tem nada…’ , eu nunca concordei muito com isso não…” Paulinho da Viola

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Toumani Diabaté

setembro 25, 2010
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Saudade

setembro 23, 2010

Saudade
Saudade de tudo
Saudade essencial e orgânica
De horas passadas que eu poderia viver e não vivi
Saudade de gente que não conheço
De amigos nascidos n’outras terras
De almas órfãs irmãs
De minha gente dispersa que talvez
Até hoje ainda espere por mim
Saudade triste do passado
Saudade gloriosa do futuro
Pressa
Ânsia voraz de me fazer em muitos
Fome angustiosa da fusão de tudo
Sede da volta final
Da grande experiência
Uma só alma
Em um só corpo
Uma só alma-corpo
Um só
Um
Como quem fecha numa gota o oceano
Afogado no fundo do si mesmo

(do livro Magma de Guimarães Rosa)

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Afinal, partiste…

setembro 14, 2010

Alguns se vão
Outros partem,
e assim
permanecem
Para sempre!

(Para Gabi)

 Afinal, partiste e foste para o Invisível.
Que rota maravilhosa tomaste neste mundo?
Batendo tuas asas, quebraste esta cela.
Erguendo-te aos céus, atingiste o mundo da alma.
Eras um falcão premiado, preso por uma anciã.
Então, ouviste o chamado dos tambores
E voaste para além do tempo e do espaço.
Como um rouxinol apaixonado, voaste entre as corujas.
Então, o perfume do jardim de rosas te atingiu
E tu ergueste vôo para encontrar a Rosa.
O vinho deste mundo passageiro fez tua cabeça doer.
Finalmente, alcançaste a taverna da Eternidade.
Como uma flecha, foste arremessado do arco
E atingiste o centro do alvo da benção.
Este mundo fantasmagórico deu-te falsos sinais
Mas tu destes as costas para a ilusão
E encarastes a jornada para a terra da verdade.
Tu és agora, o sol –
Que necessidade tens de uma coroa?
Tu sumiste deste mundo –
Que necessidade tens de amarrar tuas vestes?
Eu ouvi dizer que mal podemos contemplar a alma.
Mas por que olhar, afinal? –
Tua é agora a Alma das Almas!
Ó coração, que belo pássaro és tu.
Buscando as alturas sagradas,
Batendo tuas asas,
Tu esmagaste as flechas de teus inimigos.
As flores fogem do outono, mas tu não –
Tu és a rosa sem medo
Que cresce no meio do vento frio.
Gotejando como a chuva do céu
Tu caíste do alto do topo deste mundo.
Então, tu jorraste em todas as direções
E escapaste através de enxurrada…
Agora, as palavras terminaram
E a dor que elas trazem, se foi.
Agora, tu chegaste ao repouso
Nos braços do Amado.
(Rumi)

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A Criação Imperfeita

setembro 1, 2010

A ciência é uma construção humana, uma narrativa que criamos para explicar o mundo a nossa volta. As “verdades” que obtemos, como a lei da gravitação universal de Newton ou a teoria da relatividade especial de Einstein, apesar de brilhantes, funcionam apenas dentro de certos limites. Sempre existirão fenômenos que não poderão ser explicados por nossas teorias. Visões de mundo irão se transformar. Infelizmente, vaidosos que somos, atribuímos peso demais às nossas conquistas. Iludidos pelo nosso sucesso, imaginamos que essas verdades parciais são parte de um grande quebra-cabeça, componentes de uma Verdade Final, esperando para ser desvendada. Foram muitas as grandes mentes que buscaram, durante décadas de suas vidas, por esse Cálice do Graal, que chamarei aqui de Código Oculto da Natureza: Pitágoras, Aristóteles, Kepler, Einstein, Planck, Pauli, Schrödinger, Heisenberg. A lista é longa. Milhares de outros continuam a fazê-lo nos dias de hoje, herdeiros de uma tradição filosófica nascida na Grécia Antiga, que equaciona a perfeição e a beleza com a verdade.

Com o passar dos séculos, essa tradição filosófica fundiu-se ao monoteísmo judaico-cristão: a Criação, sendo obra de Deus, era perfeita e bela. Dedicar-se ao seu estudo, à busca por verdades eternas, era a aspiração mais nobre do intelecto humano. Desde o nascimento da ciência moderna no início do século XVII, homens como Kepler e Newton estavam convictos de que o quebra-cabeça poderia ser resolvido, de que era apenas uma questão de tempo até que o Código Oculto da Natureza fosse revelado em toda a sua glória. Essa crença continua mais viva do que nunca. O físico inglês Stephen Hawking, ecoando os patriarcas da ciência, equiparou (metaforicamente) tal feito a “conhecer a mente de Deus”. Será que estamos mesmo nos aproximando da solução da Teoria Final? Ou será que estamos perdidos, buscando um objetivo inatingível? Não seria adequado nos perguntar por que precisamos tanto acreditar nessa Teoria Final? Será que a crença numa Teoria Final é uma fantasia, a encarnação científica do monoteísmo, a expressão intelectual do desejo de uma vida mais espiritual, uma tentativa de resgatar um Deus que a razão exorcizou?

Dado que a Teoria Final necessariamente explica a origem do Universo (e tudo o mais), vemos agora como ambas as buscas — a por uma descrição unificada da Natureza e a por uma explicação da origem de todas as coisas — convergem: a Teoria Final contém a Primeira Causa; a Primeira Causa contém a Teoria Final. Será que, nós, seres limitados, poderemos um dia explicar a Criação em toda a sua complexidade?

Conhecemos ao menos duas respostas:

“Claro que sim!”, afirmariam os Unificadores. “A essência da Natureza pode ser expressa através de certas leis e princípios físicos. Em breve, todos serão descobertos. São a base da teoria unificada de campos, a expressão suprema da simetria matemática oculta em tudo o que existe. Nós a chamamos de Teoria de Tudo ou Teoria Final.”

“Claro que sim!”, afirmariam os Crentes. “Todas as respostas estão escritas no nosso Livro Sagrado. A Criação é obra de Deus, onipotente, onisciente e onipresente. Apenas um ente sobrenatural pode existir antes do espaço e do tempo. Apenas um ente sobrenatural pode transcender a realidade material para criá-la. Deus é a Primeira Causa e a Verdade Final.”

Serão essas as únicas opções? Ou será que existe uma terceira alternativa? Durante milênios, temos vivido numa espécie de transe, encantados pelos poderes místicos da unidade de todas as coisas. Ajoelhados em nossos templos, ou buscando pela expressão matemática da “mente de Deus”, tentamos desesperadamente transcender os limites do meramente humano, procurando por uma perfeição que não encontramos em nossas vidas. Perdidos no fervor da busca, fechamos os olhos para nós mesmos e para o mundo a nossa volta, e deixamos de valorizar o que temos. Precisamos abraçar os ensinamentos de uma nova visão científica do mundo, onde o poder criativo da Natureza reside nas suas imperfeições, e não na sua perfeição; onde a vida, e mesmo a nossa existência, é frágil e preciosa. Dentro dessa nova visão, nosso conhecimento do mundo será sempre limitado. Não existe uma Teoria Final, apenas uma descrição cada vez mais precisa da realidade em que vivemos.

(trecho do livro “A Criação Imperfeita” de Marcelo Gleiser)