Archive for agosto \26\UTC 2010

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Terra Incognita

agosto 26, 2010

 Terra Incognita: fotos de Richard Sexton

É um mundo vertical: uma nação de pássaros, uma multidão de folhas… Ao passar, atravesso um bosque de fetos muito mais alto do que eu; caem no meu rosto sessenta lágrimas de seus verdes olhos frios e atrás de mim ficam por muito tempo agitando seus leques… Mais adiante cada árvore se separou de suas semelhantes… Erguem-se sobre a alfombra da selva secreta, e cada uma de suas folhas, linear, encrespada, ramosa, lanceolada, tem um estilo diferente, como cortada por uma tesoura de movimentos infinitos… Um barranco; a água transparente desliza sobre o granito e o jaspe… Voa uma mariposa pura como um limão, dançando entre a água e a luz… A meu lado as calceolárias infinitas me saúdam com suas cabecinhas amarelas…

Num tremor de folhas, a velocidade de uma raposa atravessa o silêncio, mas o silêncio é a lei destas folhagens… Apenas o grito distante de um animal confuso… A interseção penetrante de um pássaro escondido… O universo vegetal apenas sussurra até que uma tempestade ponha em ação toda a música terrestre.

Daquelas terras, daquele barro, daquele silêncio, eu saí a andar, a cantar pelo mundo

Trechos de “Confesso que vivi” de Pablo Neruda

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Esquecimento

agosto 18, 2010

Primeiro, ele apareceu no reino inanimado;
Então veio ao mundo das plantas
e viveu
a vida vegetal por muitos anos, sem se lembrar
o que havia sido;
Então, tomou um caminho adiante
para a existência animal, e novamente,
Esqueceu-se da vida vegetativa,
a não ser quando deixava se mover pelo desejo
de retornar à ela, nas estações das doces flores.
Novamente, o sábio criador (que tu conheces)
o ergueu da animalidade
para o estado do Homem;
E assim, de reino em reino,
avançando, ele tornou-se inteligente
astucioso e perspicaz.
Porém, nenhuma memória deste passado
estabeleceu sua morada nele,
e a partir de sua alma atual, ele ainda se transformará.
Embora ele esteja adormecido, o criador não o deixará
nesse esquecimento.
Desperto,
rirá ao pensar no sonho incômodo que teve.
E se perguntará como pôde,
seu estado de ser,
tão pleno,
esquecer.
E como pôde
absolutamente não notar
que aquele sofrimento e tristeza eram o efeito do sono
e de vã ilusão.
Assim este mundo apenas
parece durar,
embora não seja mais que o sonho de alguém que dorme.
(Rumi – Poemas persas)

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Sebastião Salgado

agosto 10, 2010

“Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma.”

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Olhar

agosto 3, 2010

As histórias sobre o amor impossível entre Majnun e Laila percorriam todo o Oriente. Os contadores de histórias as levavam de cidade em cidade, e todos insistiam, usando muitas metáforas, na beleza lendária da jovem mulher que havia conduzido Majnun à loucura e ao abandono errante.
Um califa, ao escutar tantas louvações, quis conhecer Laila. Ele a convocou ao seu califado, e ela foi. Ele a fez sentar diante de si.
Durante uma hora, sem se mexer, ele a olhou.
Em seguida, pegou uma xícara de chá, mudou de posição e olhou-a por mais uma hora.
Após esse tempo, ele levantou, deu alguns passos e voltou a sentar-se na frente de Laila, que não dizia uma palavra.
No final da terceira hora, ele lhe diz:
– Mas como acontece de contarem todas essas maravilhas sobre você? Eu a olho, eu a vejo. Não compreendo o que dizem sobre você.
– O senhor me vê – disse-lhe então Laila – mas o senhor não tem os olhos de Majnum.

Quando José morreu, todas as flores à beira da água ficaram desoladas e pediram ao rio algumas gotas de água para chorar.
– Ah – disse o rio – se todas as minhas gotas fossem lágrimas, eu não as teria suficiente para chorar a morte de José. Eu o amava.
– Como não amá-lo? – disseram as flores. – Ele era tão belo!
– Ele era belo? – perguntou o rio.
– E quem poderia saber melhor do que você? – disseram as flores. – A cada dia ele se debruçava por cima da margem e contemplava sua beleza nas suas águas.
– Mas não era por isso que eu o amava – disse o rio.
– E então, por quê?
– Porque, quando ele se debruçava, eu podia ver a beleza das minhas águas nos olhos dele.

Um escultor, sem nenhuma formação artística, possuía a habilidade de esculpir animais na madeira. Alguns desses animais eram conhecidos dele, mas outros, ele nunca tinha visto.
Um dia, quando esculpia uma girafa sem nenhum modelo nem imagem desse animal, alguém lhe perguntou, espantado, como ele procedia.
 – É muito simples – ele respondeu. – Pego meu pedaço de madeira, começo a trabalhar e tudo que não é a girafa eu jogo fora.