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Normalidade

julho 12, 2010

O que é normalidade e quem estabelece seus parâmetros? Na entrevista abaixo, da revista Bravo com Íris da Silva, podemos talvez contemplar o quanto do potencial humano pode se expressar de formas tão diversas. E, por contraste, ver quanto a “normalidade” estabelecida socialmente, nem sempre representa um grau de desenvolvimento humano.

“Jovem, vivaz e inteligente, Íris da Silva é autista. Na infância, já exibia as características danosas do transtorno que dificulta severamente a integração social de quem o manifesta. Ela atravessava longos períodos imóvel e em absoluto silêncio, com o olhar disperso. Depois, agitava mecanicamente as mãos, gritava, tremia ou rodava em volta de si. Não demonstrava afeto por ninguém, repelia os contatos físicos e não pronunciava nenhuma palavra. Mais tarde, no entanto, abandonou em parte os comportamentos inusitados e se tornou capaz de dialogar. Também revelou aptidões espantosas, como o talento para a botânica. Recentemente, escreveu e lançou o livro A Vida Afetiva das Plantas – um ensaio de 90 páginas em que discorre sobre ‘a memória ancestral das samambaias’, ‘a astúcia da árvore caída’, ‘os soluços entrecortados do jasmim’. O trabalho logo despertou a curiosidade dos leitores e hoje se encontra na 11ª edição.

BRAVO!: Por que você se interessa pelo mundo vegetal?

Íris da Silva: Por causa da paciência, da calma que impera naquele universo. Pinheiros, avencas, cravos, gérberas… As plantas chegaram à Terra há muito tempo. Milhões de anos. Elas escolheram a quietude. Acácias, mangueiras, orquídeas… Ipês, begônias, margaridas… Todas se contentam com o sossego, a imobilidade, a paz. Enquanto nós… Mexer, buscar, perseguir, atacar, devorar. Nós… Caçadores e presas. Dia e noite. Tensos. Nós quisemos a ansiedade. Correr, pegar, mastigar. As plantas desejaram apenas a mansidão. Eu sei. Eu as conheço. Entendo o que lhes acontece. Eu já estive lá. Com as plantas, como as plantas. Sem confusão, sem terror. Não buscar, não perseguir, não atacar. Eu podia continuar por ali indefinidamente. Podia, mas… O clamor de fora, o alvoroço, as cores… Me chamando… Me chamando… Minha existência inteira é uma demorada viagem da luz à escuridão. Não, não… Da escuridão à luz. De uma escuridão luminosa, tranquila, monástica, à claridade débil, frenética, compartilhada.”

Fonte: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/teatroedanca/iris-silva-mascara-574672.shtml