Archive for junho \09\UTC 2010

h1

Shams de Tabriz e os pássaros

junho 9, 2010

Isso aconteceu durante uma noite, nas ruelas de uma cidade do Oriente Médio, Bagdá ou Damasco, ou numa outra qualquer.

Ao cair da noite, um velho passarinheiro fechou sua loja, colocou duas gaiolas sobre as costas, com os pássaros que lhe pertenciam e se pôs a caminho de casa. As gaiolas balançavam a cada um de seus passos. Fatigado, o homem avançava muito lentamente, se apoiando numa bengala.

Um dervixe, conhecido como Shams de Tabriz, notou o caçador de passarinhos e começou a caminhar a seu lado. Ele escutou o homem que falava em voz baixa, como se conversasse com os passarinhos:

“Não, não, vocês não têm do que se queixar… Eu me ocupo de tudo, desde a manhã, quando os alimento com açúcar e vigio para que a água que bebem esteja fresca. Cuido de seus bicos e plumas, limpo suas gaiolas, as perfumo e repinto uma vez por ano e as coloco perto do fogo quando faz frio. Ah se alguém pudesse me colocar sobre os ombros numa gaiola como a sua! Ah, se alguém pudesse, a cada dia da minha vida, me dar de comer e de beber!”

Então Shams acreditou ouvir uma voz muito frágil que respondeu ao passarinheiro. Ele se aproximou, aguçou o ouvido e percebeu que um dos passarinhos falava com o velho.

“Você acredita que estamos numa gaiola, mas se engana. Escute: insetos minúsculos são prisioneiros em minhas plumas, e eles nem sequer o percebem. Você mesmo vive também numa gaiola. Sua casa, esta rua, a cidade inteira é uma gaiola… Onde você acha que terminam as grades de sua gaiola? A Terra inteira, nosso planeta, para você e para nós, é uma gaiola. O próprio Universo é uma gaiola, colocado como um fardo sobre os ombros do infinito.”

O velho passarinheiro somente exalou, num suspiro de lassidão. Shams nem sequer teve certeza que ele havia escutado seu pássaro.

Um pouco mais adiante, o comerciante recomeçou a se queixar e a comparar sua sorte com a dos pássaros.

Então, uma voz ainda mais frágil de um outro pássaro se fez ouvir. Shams teve que se aproximar ainda mais do passarinheiro, que no meio de seus devaneios e da escuridão, nem sequer o percebeu.

“Esqueça tudo isso. Seu pensamento está preso, ele também, em uma gaiola forjada e mantida por você mesmo. Você acredita que essa gaiola existe, mas se engana. Seu pensamento fixou muito solidamente suas próprias grades, das quais quer tanto se livrar, e que não pode nem mesmo enxergar. Entre na sua casa, repouse, pare de pensar e durma. Quando adormecer, então todas as gaiolas do mundo se abrirão, e nós poderemos retomar essa conversa.”

Na rua seguinte, Shams estacou e ficou a contemplar o velho que se afastava. Os homens se separaram e as vozes dos pássaros se perderam.