Archive for maio \26\UTC 2010

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Formas invisíveis

maio 26, 2010

foto: Louise Chin & Ignacio Aronovich
http://www.lost.art.br

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha,

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

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A reconquista da rua!

maio 19, 2010

Banksy

Houve um tempo em que a rua era o lugar do encontro, era lugar da vida, extensão da própria casa! Colocávamos a cadeira ao pé da porta, ou debruçados na janela, conversávamos com o vizinho, na época um conhecido. As crianças, em bandos, eram a turma da rua, que jogava bola, empinava pipa, sumia pelo bairro e voltava no cair da tarde, suja de terra e faminta. A rua era onde fazíamos amigos, namorávamos, discutíamos sobre o resultado do jogo, caminhávamos até a mercearia, a quitanda, a banca de revistas e a padaria onde o Seu Manuel nos dava bom-dia nos chamando pelo nome. Não existia o shopping-center nem o condomínio fechado, nem Carrefures e Extras, todas estas invenções de uma cidade que se entregou refém ao carro, aquele mesmo utensílio que, supostamente criado para encurtar distâncias, tornou tudo tão longe para que sempre precisemos dele. E tornou o espaço público tão hostil! A rua hoje é perigosa, proibida para as crianças. Para todos nós se tornou um não-lugar por onde passamos apressados e, não raro, com medo, blindados de um contato real, vendo uma abstração de existência passar pela janela fechada de veículos. A rua hoje é espaço desqualificado (quase virtual), por onde se vai de lugar a lugar. A ditadura do automóvel moldou a nossa cidade condicionando toda uma modalidade “moderna” de vida. Banksy “falou” tudo isso de uma forma muito simples, e como sempre, deliciosamente agridoce. É hora de reconquistar a rua!

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Mais que mil palavras

maio 14, 2010

Citado por http://eduq.wordpress.com/

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Beckett

maio 4, 2010

Em 1969, Samuel Beckett recebeu o Prêmio Nobel em Literatura. Abaixo segue uma parte do discurso proferido na ocasião por Karl Ragnar Gierow sobre a obra do escritor.

Em muitos aspectos, o romance Watt marca uma mudança de fase na carreira do autor. Foi escrito entre 1942-44 no sul da França – para onde Beckett fugiu dos nazistas – e foi seu último trabalho na língua inglesa por quase 15 anos. O mundo ao redor havia também mudado quando Beckett voltou a escrever depois de Watt. Todos os outros trabalhos que o tornaram famoso são de 1945-49. A Segunda Grande Guerra é a fundação destas obras; foi depois disto que seu trabalho alcançou maturidade e desenvolveu uma mensagem. Mas esses trabalhos não são sobre a guerra em si, ou a vida no front, ou sobre a Resistência Francesa (da qual Beckett participou), mas sobre o que aconteceu depois, quando a paz foi restabelecida, e uma cortina se ergueu para revelar o espetáculo terrível das profundezas onde o homem pode chegar em sua degradação desumana – seja seguindo ordens ou por sua vontade – e até que ponto o homem pode sobreviver frente a essa degradação. Neste sentido, a degradação da humanidade é um tema recorrente na obra de Beckett, e sua filosofia pode ser descrita como um negativismo que não pode evitar descer até suas profundezas. Para as profundezas deve-se ir, porque é apenas lá que o pensamento pessimista e a poesia podem operar seus milagres.

Parte da essência da visão de Beckett é encontrada aqui – na diferença entre um pessimismo facilmente adquirido que descansa feliz num ceticismo sem preocupações, e um pessimismo que é apaixonadamente adquirido e que penetra na destruição iminente da humanidade. O primeiro tem início e se encerra com o conceito de que nada tem realmente algum valor, e o último, é baseado exatamente no oposto. Pois aquilo que não tem valor não pode ser degradado. A percepção da degradação humana não é possível se os valores humanos forem negados. Mas a experiência se torna mais dolorosa à medida que o reconhecimento da dignidade humana se torna mais profunda. Esta é a força interna purificadora, a força da vida, portanto, no pessimismo de Beckett. Ele abriga um amor pela humanidade que cresce em compreensão à medida que chega ao extremo do horror, um desespero que tem que atingir o limite último do sofrimento para descobrir que a compaixão não tem limites. Desta posição se ergue a obra de Samuel Beckett, como um miserere para toda a humanidade, em um tom menor abafado, saudando a liberação do oprimido e confortando aqueles que estão em sofrimento.

Isso parece estar claramente estabelecido em duas obras primas, Esperando Godot e Dias Felizes. No caso de Godot temos, ‘Você é aquele que deveria vir ou nós estamos esperando por outra pessoa?’ Os dois mendigos são confrontados com a ausência de significado da existência em sua forma mais brutal. Nenhuma lei é mais cruel que as da criação e o peculiar status do homem na criação vem do fato dele ser a única criatura que aplica estas leis com intenções deliberadamente malignas. Mas se concebemos uma providência – uma fonte, mesmo do sofrimento incomensurável infligido pela, ou dentro da, humanidade – que tipo de onipotência é esta que nós – como os mendigos – devemos encontrar em algum lugar, algum dia? A resposta de Beckett consiste no título da peça. No final da atuação, como no final da nossa própria, ficamos sem saber nada sobre este Godot. As cortinas se fecham e não temos nenhum insight sobre a força cujo progresso testemunhamos. Mas sabemos de uma coisa, a qual nem mesmo todo o horror desta experiência pode nos privar: ou seja, a nossa espera. Esta é a situação metafísica humana da espera incerta e perpétua, capturada com verdadeira simplicidade poética: Esperando por Godot.

O texto Dias Felizes – ‘uma voz gritando na selva’ – está mais preocupado com a situação do homem na terra, de nossas relações uns com os outros. Em sua exposição, Beckett tem muito a dizer sobre nossa capacidade de nos entreter em ilusões despreocupadas em um vácuo selvagem de esperança. Mas esse não é o tema. A ação simplesmente se refere ao isolamento, a areia que sobe mais e mais alto até que o indivíduo esteja completamente enterrado na solidão. Para fora deste sufocante silêncio, no entanto, ainda se ergue uma cabeça, e a voz grita a necessidade indomável do homem por buscar seu amigo e companheiro no exato momento final, falar a seus iguais e encontrar companhia em sua solidão.

Fonte: http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1969/press.html