Archive for janeiro \29\UTC 2010

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A condição humana

janeiro 29, 2010

“Alguém disse que somos capazes de conhecer todas as condições do homem. Que nenhuma parcela de sua natureza, comportamentos e humores nos escapam; ainda assim devemos descobrir qual parte dele vive na eternidade.

“Se isto pudesse ser conhecido somente por palavras, então tamanho esforço e intensidade não seriam necessários e ninguém precisaria passar por estes desafios e sacrifícios. Por exemplo, alguém vem ao litoral. E não vendo nada além de águas turbulentas e peixes, diz: Onde estão as pérolas? Talvez não haja nenhuma. Como pode alguém obter uma pérola somente olhando para o mar? Mesmo que alguém medisse o mar, copo por copo, milhares de vezes, as pérolas não seriam encontradas. É necessário ser um mergulhador para encontrar as pérolas, mas não qualquer mergulhador – somente aqueles mais habilidosos e afortunados.

“As ciências e profissões são como medir o mar em copos; o meio de encontrar pérolas é outro. Muitas pessoas são adornadas com realizações e possuem abundância e beleza, mas não contêm nada deste significado intrínseco nelas. E muitas pessoas são aquelas que nada disso possuem, mas dentro delas encontramos este significado intrínseco residindo eternamente. E é exatamente isto que enobrece e distingue a humanidade. É por causa deste significado intrínseco que os seres humanos têm precedência sobre todas as criaturas. Se o homem encontrar seu caminho em direção a este significado intrínseco ele atingirá tal proeminência, de outra maneira ele será privado dela. Todos os outros feitos e realizações são como jóias colocadas nas costas de um espelho. A face do espelho está vazia. Todo aquele que é feio deseja as costas do espelho porque a face dele tudo revela. Todo aquele que tem uma bela face percorrerá qualquer distância na busca pela face do espelho porque ela revelará sua própria beleza.

“Um Amigo de José veio até ele depois de uma viagem. José perguntou: Que presente você me trouxe?

O que você ainda não possui? Existe algo que você precise?, perguntou o amigo. Ainda assim, porque não existe nada mais belo que você, eu te trouxe um espelho para que você possa contemplar sua face, a todo o instante.

(Rumi – Fihi ma fihi)

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Imaginação

janeiro 11, 2010

Já falamos sobre o Mundo Imaginal, mas acho que cabe aqui um resumo antes de ingressar no assunto deste post.

Esse Mundo tem sido localizado pelos estudiosos (especialmente, Avicena, Suhrawardi e Henri Corbin) em uma posição intermediária entre a realidade material perceptível pelos sentidos e um mundo de outra natureza ou, segundo os autores, um mundo espiritual. Ele seria um istmo (em persa: barzak), um caminho de acesso ou de passagem entre duas dimensões de realidade. Ele tem sido chamado de “terra do não-onde” (na-koja abad) sinalizando que ele está situado além de toda a localização geográfica possível de ser determinada. Na astronomia geocêntrica, baseada na cosmologia grega, ele foi posicionado além da Esfera das Estrelas Fixas, ou seja, em um local que se situa além de todo o universo conhecido.

Ele é também chamado de “mundo dos arquétipos” (ou das “imagens”) (alam-al-mithal) e é dito ser o local onde se torna possível acessar as concepções originais de tudo o que existe na realidade perceptível pelos sentidos e por isso, é comum ver esse conceito relacionado com o Mundo das Ideias do Platonismo.

Da mesma forma que a percepção da realidade material necessita dos órgãos dos sentidos, a percepção desse Mundo necessita também de uma capacidade especial, que é chamada de Imaginação Ativa. Essa capacidade é desenvolvida através de técnicas específicas, de tal modo a permitir que a pessoa possa interagir com esse tipo de realidade e assim, obter o conhecimento inerente desse Mundo. Esse conhecimento, basicamente, fundamenta-se na percepção de novos e mais abrangentes significados para a existência, tanto de si mesmo quanto da criação. E segundo os estudiosos do assunto, essa capacidade nada teria a ver com a imaginação comum, que fundamenta os processos fantasiosos dos momentos de devaneio.

No entanto (e aqui começa de verdade o assunto desse post) encontrei esses dias uma citação de Hubert Benoit (The supreme doctrine. 1955) que diz assim: “Devemos nos perguntar como [qualquer pessoa] pode vir a aceitar seu estado […] temporal, limitado e mortal, de estar separada de uma totalidade. Esse estado é totalmente inaceitável em termos emocionais. Como pode uma pessoa viver dessa maneira? Ela é capaz de lidar com essa situação insustentável através do jogo de sua imaginação, uma faculdade que sua mente possui de recriar um mundo subjetivo, cujo princípio motor agora é a própria pessoa. O homem nunca iria se resignar em não ser o único poder propulsor do universo, se ele não tivesse a faculdade consoladora de criar um universo para si próprio, um universo que ele cria completamente sozinho.”

Assim, mesmo a imaginação comum apresentaria a função algo bombástica de gerar uma “bolha” de realidade dentro da qual cada pessoa brinca de criador. Porém, apesar de criarmos um universo subjetivo, só para nós, não me parece que o criamos estritamente sozinhos, como diz o autor. A realidade criada é mais ou menos compartilhada e assim, tornada consensual – e é justamente esse consenso que torna a pessoa viável na sociedade. Mas, por outro lado, é também este consenso que permite a reprodução dos padrões de dominação e poder dentro da sociedade através da limitação da consciência, perpetrada principalmente pela propaganda e a mídia de massa, entre outros fatores.

E, além disso, essa realidade de consenso imaginada pelas pessoas acaba mantendo certas visões de mundo que talvez sejam apenas limitadas e ilusórias, frutos de uma capacidade imaginativa pobre e enviesada. Nesse contexto, o desenvolvimento da Imaginação Ativa poderia resultar em uma cura para estas ilusões, demonstrando num primeiro momento sua própria natureza fantasiosa, e depois expandindo a consciência para muito além da fina membrana que determina nosso confinamento em uma bolha estreita de realidade.