Archive for novembro \27\UTC 2009

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Sonhando com o Borges

novembro 27, 2009

Um dos contos de Jorge Luis Borges (As Ruínas Circulares) fala sobre um homem, que viaja até um local específico com o propósito único de sonhar. Mas, longe de deixar que o sonho surja ao acaso, esse homem tem como objetivo específico, sonhar um outro homem, e assim, noite após noite, ele o molda com cuidado e carinho. Depois de alguns percalços, finalmente, o homem sonhado desperta dentro do sonho do homem que sonhava, e este último então, liberta seu Adão onírico do mundo do sonho. E aquele homem que fora sonhado vem à vida, em um local próximo dali. Antes, porém, para protege-lo, o criador faz a criatura esquecer-se de sua origem e assim, imagina que ele viverá e encontrará a felicidade. No entanto, como o homem sonhado havia sido forjado no templo do fogo, ele se torna imune a esse elemento, e esse fato faz com que ele seja detectado como um homem que não pertence ao mundo dos homens. Logo, as notícias desse homem extraordinário chegam aos ouvidos do homem que o sonhara e em meio ao desespero, ele percebe que sua criação corre perigo. Porém, quase ao mesmo tempo, um incêndio concêntrico se espalha pelas redondezas. O homem que sonhara tenta escapar, mas então, pela primeira vez, ele percebe que o fogo não o consome, e descobre-se igualmente imune; ele mesmo é o resultado do sonho sonhado por outra pessoa.

Os filósofos modernos têm sugerido que não existe uma única realidade (ou uma realidade objetiva), mas que toda a realidade é apenas pessoal. Cada um gera sua própria realidade e a “sonha,” ou seja, projeta sua visão pessoal de realidade para fora de si mesmo, vivendo-a como se ela fosse real.

Assim, toda a realidade é uma representação – não existe uma realidade com “R” maiúsculo, mas representações diferentes geradas por pessoas diferentes. E me parece que isso é exatamente o que se espera: múltiplas visões que quando somadas, talvez então possam refletir o todo que reside velado na multiplicidade. Porém, certamente, é necessário um outro tipo de sonhador que seja capaz de sonhar esse tipo de realidade.

Mas, já falamos em outros posts sobre mídia e cultura de massas, tema esse recorrente aqui no Exquema. Um dos problemas da atuação dos veículos midiáticos passa por essa questão acima: a capacidade das sociedades em gerar múltiplas realidades tem sido dificultada pela atuação da mídia. A mídia sonha o sonho dos mundos, contribuindo para que as pessoas deixem de sonhar seus próprios. Ela acaba sendo a geradora e mantenedora da realidade de consenso, e as pessoas, como não são mais capazes de sonhar, passam a sonhar essa realidade. Elas são como sonâmbulos, passivos frente a um sonho imposto, e acabam atuando quase como co-criadores dessa realidade que é mantida graças à ausência de outros sonhos sonhados.

E o pior: já não parece ser mais necessário desenvolver a consciência baseada na razão, reflexão, senso crítico: a mídia empresta (impõe) a razão dela para todos. E um homem inconsciente de si e da realidade se torna um homem-máquina; apenas mais uma engrenagem de um sistema. Tudo lhe acontece; ele não é o sujeito (o agente) do mundo, mas, uma marionete que é empurrada de um lado para outro. Sua busca se reduz a satisfazer mais uma necessidade premente e doentia de ser ou obter algo que nem mesmo faria algum sentido para ele se ele tivesse liberdade e capacidade de sonhar sua própria realidade.

Esses veículos de cultura de massas contribuem para gerar e manter um padrão inconsciente de percepção de si mesmo e do mundo. Impondo esses padrões eles “desligam” as pessoas de tal forma que elas passivamente, vivem a realidade que eles geram, apenas. Ou seja, o problema maior parece ser esse achatamento em termos da consciência e, ao mesmo tempo, a saída para se lidar com isso passa, necessariamente, por ai também.

Da mesma forma que o personagem do Borges, em algum momento, será necessário perceber que a realidade de consenso vem sendo gerada por alguém –  aquilo que cada pessoa pensa que é ela mesma e a realidade na qual ela vive, consiste apenas no produto do sonho de outrem.

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Haydar Haydar

novembro 16, 2009

Haydar significa  leão na língua árabe e é também um dos nomes pelo qual Ali, o genro do profeta Maomé é chamado. A força e significado central que Ali possui no sufismo  da Anatólia e dos Bálcãs se torna evidente na música tradicional turca, e de forma mais notável entre os grupos Alevis e Bektashis. Estes grupos são, com freqüência, discriminados e perseguidos por apresentarem formas pouco ortodoxas de espiritualidade dentro do contexto islâmico, como o uso ritual do vinho e a participação conjunta de homens e mulheres nas cerimônias e samas, reuniões onde se celebra a união mística na presença de muita música e dança. A canção Haydar Haydar faz parte desta tradição e é muito popular em toda a Turquia.  Tocada pelo músico belga/turco Tanar Catalpinar (no saz, instrumento de cordas) traz alguma inovação como a utilização de instrumentos ocidentais.  O destaque especial fica para o incendiário violino de Nicolas Hauzeur. Mais abaixo, uma tentativa de tradução da letra.

Oh irmão, por quatorze séculos eu lhe busquei
Dentro dos círculos de dervixes onde bebi do vinho do amor…
Então, festejamos nosso encontro cheios de emoção
Ao compartilhar um belo cacho de uvas.
Mesmo que você me chame Haydar
Eu vivi e morri,
Mesmo que você me chame Haydar…
Oh irmã! Vá ao encontro de sua própria vida!
Eu também irei…
Mesmo que você me chame Haydar
Eu vivi e morri como você.
E eu continuo na busca do amor real
Dançando e cantando como o rouxinol.
Por cantar e dançar como o rouxinol
Eu vivi e morri como todos vocês…
Mesmo que você me chame Haydar…

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O pensamento de Galileu

novembro 10, 2009

(Baseado em texto de Rodolfo Mondolfo)galileu

A invenção do telescópio por Galileu no século XVII abriu à investigação um universo de proporções nunca antes contempladas, mas a importância foi maior no seu caráter de prova e documentação, do que dos objetos e fenômenos em si observados. Viu-se, a partir de então, o desvanecer de toda a hierarquia medieval das esferas e corpos celestes. O fenômeno essencial passa a ser o movimento regido pelas leis quantitativas da mecânica que submetidas ao cálculo matemático firmava uma nova concepção da natureza universal. Ocorre assim, no pensamento de Galileu, uma relação estreita entre a observação astronômica e a pesquisa teórica. Num âmbito geral cria-se uma metodologia que vincula de forma recíproca dois elementos fundamentais: o exame empírico, obtido por meio dos sentidos, e a compreensão racional, obtida pela demonstração lógico-matemática.

Estes dois elementos fundamentais, integrados por Galileu no seu método, já aparecem, mas de forma diversa e isolada, com o empirismo indutivo de Francis Bacon, e o racionalismo dedutivo de Descartes.

Galileu difere de Descartes por buscar no fato observado uma necessidade intrínseca vinculada a causa que o produz, que se suprimida o fato não ocorre. Assim a dedução de Galileu não está separada da experiência, mas unida a ela. A dedução de Descartes, por sua vez, se faz a priori, isto é, resulta do pensamento lógico que se abre, a cada etapa, às possibilidades, dentre as quais, uma única realizada torna-se contingente. A experiência teria para Descartes unicamente a tarefa de averiguação post eventum, não sendo previsível devido a ausência de uma necessidade causal. Para Galileu a causa, uma vez estabelecida sempre produzirá o evento.

Já o método empírico de Bacon visa a comprovação dos fatos pela observação, ele valida os fatos observados e não necessariamente outros, o que o aproxima do modo indutivo aristotélico. Galileu difere de Bacon afirmando que este método é pretensioso ao passar dos casos observados aos observáveis, porque mesmo a observação de vários casos não garante a universalidade das conclusões, “porque mil perante a infinidade é o mesmo que zero”. (Ver o texto todo)