Archive for maio \26\UTC 2009

h1

Linton Kwesi Johnson

maio 26, 2009

johnsonFaz quase 20 anos que ouvi e me surpreendi pela primeira vez com a voz, o sotaque, o som, a poesia e a contestação da arte de Linton Kwesi Johnson.  Mas foi ao folhear a edição clássica de poesia da Penguin Books que vi seu nome e seu poema entre Walt Whitman, William Wordsworth, William Shakespeare, William Blake, Sylvia Plath e tantos outros, que me dei conta de sua importância como artista.

Linton Kwesi Johnson nascem em 1952 na Jamaica. Foi para Londres em 1963 e cursou sociologia na Goldsmiths’ College, da Universidade de Londres. Enquanto ainda era estudante, ele participou dos Black Panthers, ajudou a organizar um workshop de poesia, e desenvolveu trabalhos com o Rasta Love, um grupo de poetas e percursionistas.

Ele assumiu algumas posturas controversas desde que chegou em Londres e tornou-se uma voz ativa na luta contra o racismo. Como um artista visado e um ativista político, ele extravasou uma linguagem rítmica que, apesar dos confins semânticos da editora Penguin, ela abriu suas páginas para ele. Esta instituição, uma das mais britânicas de todas, fez desse escritor descompromissado o segundo poeta vivo da seção dos clássicos modernos.

Ele tem sido considerado pelos britânicos, um ícone, um visionário e poeta, mas essa figura enigmática rejeita esses epítetos como “media tags”. Sobre seu tratamento singular pela Penguin, Johnson permanece “tão surpreso quanto todos. O que eles fizeram foi bem corajoso.” Especialmente porque, em sua própria opinião, “seu trabalho tem sido uma mera contribuição para devolver a poesia para o povo.” 

Nos anos 70, Johnson criou poemas políticos nem um pouco dissimulados sobre assuntos que afetavam os jovens negros, e à medida que os distúrbios nas ruas ficavam mais agressivos, o mesmo acontecia com sua poesia. Seus versos documentaram os pontos altos da luta enfrentada por toda vítima da injustiça, incluindo Blair Peach, um professor morto durante uma marcha anti-fascismo em 1979. Em sua poesia, o pessoal encontra o político – ou melhor, enfatiza sua inseparabilidade.

Seu idioma permanece tão orgulhosamente patoá (patwa – idioma jamaicano) como sempre, e seus temas têm sido tanto amplos em seu horizonte político, quanto pessoais em sua introspecção.

Ele viajou o mundo do Japão à África do Sul, da Europa ao Brasil. Seus discos estão entre os álbuns de reggae mais vendidos no mundo. Ele é reconhecido e reverenciado como o primeiro poeta reggae do mundo, e um dos artistas mais originais e únicos. E, diferente de muitos poetas e artistas depois de seu primeiro resplendor de criatividade, Linton Kwesi Johnson ainda tem muito que dizer.

Para ouvir um pouco da força de suas palavras e o ritmo de sua poesia veja o vídeo abaixo, da música Fite dem back, com os versos:
we gonna smash treir brains in (vamos esmagar seus cérebros)
cause they ain´t got no fink in `em (pois eles não possuem nenhum pensamento dentro deles)

wi mawchin out di ole towards di new centri (nós estamos marchando do velho em direção ao novo século)

arm wid di new technalagy (armados com a nova tecnologia)

wi gettin more an more producktivity (estamos ficando mais e mais produtivos)

some seh tings lookin-up fi prasperity (alguns dizem que as coisas parecem estar caminhando para prosperidade)

but if evrywan goin get a share dis time (mas se todos terão sua parcela desta vez)

ole mentality mus get lef behine (a velha mentalidade tem que ser abandonada)

 

wi want di shawtah workin day (nós queremos um dia mais curto de trabalho)

gi wi di shawtah workin week (dê-nos uma semana mais curta de trabalho)

langah holiday (feriados mais longos)

wi need decent pay (necessitamos de pagamento decente)

 

more time fi leasha (mais tempo para preguiça)

more time fi pleasha (mais tempo para prazer)

more time fi edificaeshun (mais tempo para edificação)

more time fi reckreashun (mais tempo para recreação)

more time fi contemplate (mais tempo para contemplar)

more time fi ruminate (mais tempo para digerir)

more time (mais tempo)

wi need (precisamos)

more (mais)

time (tempo)

gi wi more time (dê-nos mais tempo)

 

a full time dem abalish unemployment (um tempo pleno e abolir o desemprego)

an revahlushanise laybah deployment (revolucionar a distribuição de trabalho)

a full time dem banish ovahtime (um tempo pleno e banir a hora extra)

mek evrybady get a wok dis time (façam todos terem emprego desta vez)

wi need a highah quality a livity (necessitamos uma maior qualidade de vida)

wi need it now an fi evrybady (necessitamos agora e para todo mundo)

wi need di shawtah workin year (necessitamos um ano de trabalho mais curto)

gi wi di shawtah workin life (dê-nos uma vida mais curta de trabalho)

more time fi di huzban (mais tempo pra seu marido)

more time fi di wife (mais tempo pra sua esposa)

more time fi di children (mais tempo para suas crianças)

more time fi wi fren dem (mais tempo para amizade)

more time fi meditate (mais tempo para meditar)

more time fi create (mais tempo para criar)

more time fi livin (mais tempo para viver)

more time fi life (ais tempo para a vida)

 

more time (mais tempo)

wi need more time (necessitamos mais tempo)
gi wi more time (dê-nos mais tempo)

Anúncios
h1

Mario Benedetti

maio 22, 2009

benedettiQue descanse em paz
Enfim
O poeta que dela nos retira.
Que a intensidade leve
Enfim
O poeta que a ela nos convida.
Que fechem teus olhos (cheios de sentido)
Enfim
    Cansados e encantados,
Oh poeta que tornou os nossos
Sem fim…

Exquema

Morreu dia 17/05/2009 o poeta uruguaio Mario Benedetti, um dos grandes nomes da literatura latino americana. Autor de uma vasta obra literária, foi reconhecido internacionalmente na década de 60. Não importa se falando de política ou amor, seus poemas recordam e renovam nossa própria humanidade.

No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma 
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo 

pero si
pese a todo
no puedes evitarlo

y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y  te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas

entonces
no te quedes conmigo.

Não permaneças imóvel
à beira do caminho
não congeles o júbilo
não desejes sem vontade
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te preenchas de calma 
não reserves do mundo
só um canto tranqüilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como sentenças
não permaneças sem lábios
não te durmas sem sonhos
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo

mas se
apesar de tudo
não podes evitar

e congelas o júbilo
e desejas sem vontade
e te salvas agora
e te preenches de calma
e reservas do mundo
só um canto tranqüilo
e te deixas cair as pálpebras
pesadas como sentenças
e te secas sem lábios
e te dormes sem sonhos
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e permaneces imóvel
à borda do caminho
e te salvas

então
não fiques comigo. 

h1

Universo

maio 7, 2009

universo1O Universo, que foi criado em três, foi dividido em dois. E tiraram o recheio! Ficaram dois pães sem o hambúrguer… que, afinal, é o que dá o sentido, o nome e sabor ao sanduíche! Retiraram o degradê e ficamos em preto e branco. Sem nada entre eles. Sem o degradê, como podemos saber que não existem separações, não existem limites? Como podemos recordar que há somente uma única cor, que se multiplica em infinitas expressões? Corpo ou espírito, mundo ou céu… e nada entre eles, e nada que os conecte? Apegos ou sacrifícios, imersão ou reclusão, profano ou sagrado…. e nada entre eles?!!! Talvez essa seja a marca da ignorância de nosso tempo. Essa pobreza de nuances, de sutilezas, de símbolos e significados. Porque o sim-bólico (symbolo – do grego) agrega, une, revela… e o dia-bólico (diabolo – do grego) separa, quebra o que estava unido. Não uma entidade diabólica, mas a ignorância sem imaginação, que é incapaz de contemplar significados, de estabelecer relações, restituir os símbolos e penetrar a realidade.

Somente a Imaginação Criativa pode revelar o que está oculto. Imaginação que confere forma ao inteligível, imagem à ideia. Une novamente o que a ignorância separou. Imaginação que também penetra a forma e revela o universo infinito que a antecede e que a contém.

A fantasia cega, a imaginação ilumina, e nos iluminando, ilumina o mundo. Assim, rompe as semelhanças e restitui a imagem, que expressa a idéia, reflexo de sua perfeição. Sem ela o Universo permanece congelado, separado, sem recheio, sem significado, sem sabor.

E nós também.