Archive for março \13\UTC 2009

h1

Qualidade!

março 13, 2009

pirsig_chris_leg“Qualquer explicação filosófica sobre Qualidade será tanto falsa quanto verdadeira precisamente porque é uma explicação filosófica. O processo da explicação filosófica é um processo analítico, um processo de quebrar algo em sujeitos e predicados. O que quero dizer (assim como todo mundo quer) pela palavra ‘qualidade’ não pode ser quebrado em sujeitos e predicados. Isto não é porque Qualidade é algo tão misterioso, mas porque Qualidade é muito simples, imediata e direta.” – Robert M. Pirsig

Já faz um bom tempo que eu li Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert Maynard Pirsig. Ele, junto com outros autores como Richard Bach e Antoine de Saint-Exupéry, tiveram na minha adolescência grande influência sobre o que ocorreria nos anos seguintes, agindo como sementes de uma inquietação espiritual e minha crescente atração pelo mistério. Pirsing, para mim, se destacou pela profundidade e densidade teórica de seu livro, assim como pela idéia (quase) libertadora de viajar de motocicleta pelo imenso território americano.  O que por um lado ao meu intelecto mal treinado significou um grande esforço, por outro lado, para meu fervor juvenil, foi lenha seca para a fogueira de um anseio que eu já sentia, ainda que não o compreendesse. Ativava-se simultaneamente em mim, pela Qualidade deste livro, o “clássico” e o “romântico”.

Como o próprio título sugere, seu livro enfoca a necessidade de superar a barreira artificial erguida como força contraditória entre  a denominada ‘visão romântica’ e a ‘visão clássica’.

Se para os românticos prevalece o modo imaginativo, intuitivo, emocional, estético, pelo qual os sentimentos predominam sobre os fatos, para os clássicos prevalece a razão e as leis físicas que moldam o pensamento e o comportamento dos corpos. Se o primeiro encontra sua expressão máxima na arte o último a encontrará na ciência. Partindo-se desta dicotomia deduz-se que viajar de motocicleta é romântico enquanto que concerta-las é algo puramente clássico.

As implicações desta dualidade são profundas e o tema é atualíssimo para os que tem lido autores contemporâneos como Tom Cheetham, Peter Lamborn Wilson e Ken Wilber. Esta dicotomia implica não só na separação entre arte e tecnologia, mas entre espírito e matéria e se origina, segundo Cheetham, num processo histórico de mudança da qualidade de nossa percepção. Esta mudança está associada a um condicionamento cultural cuja origem alguns atribuem ao “penso logo existo” de Descartes, mas que tanto Cheetham como Henry Corbin gostam de localizar numa data bem anterior, no século XII quando prevaleceu, a partir dos escritos de Averróis, a filosofia Aristotélica sobre a Platônica.  Na figura logo abaixo, detalhe de uma pintura de Rafael, podemos observar as mãos dos filósofos, Platão aponta para cima e Aristóteles volta a palma da mão para o solo,  uma clara simbologia da oposição de seus pensamentos.

plato_artistVoltemos então para o conceito de “Qualidade” de Pirsig. Esta noção implica em que a máxima socrática “conheça a sim mesmo” é um processo a ser buscado em toda a atividade humana, como por exemplo, na manutenção de uma motocicleta. A “Arte” da manutenção é a “Qualidade” aplicada ao ato. Como falou o próprio Pirsig, “Arte é qualquer coisa que você pode fazer bem. Qualquer coisa que você pode fazer com Qualidade” . E Qualidade é para ele a palavra chave. Com Qualidade, toda a atividade humana é um exercício de meditação. Supera-se aqui qualquer noção preconceitual sobre o mundo como local da corrupção. É nele que colhemos o material de trabalho para a nossa transformação, ele é o laboratório alquímico onde a Qualidade transmutará o denso no sutil. Antes de um processo externo, a transformação do mundo é a transformação do “ser” que percebe o mundo, mudando-se a qualidade da percepção, muda-se o mundo. A Qualidade é a chave que abre a percepção de modo que ela possa perceber o “espírito” em tudo. Pirsig diz: “O Buda repousa tanto sobre uma flor como sobre os circuitos de um computador”.

Qualidade é o dharma hindu, o kaif  sufi e a ‘virtude’ dos antigos gregos. Podemos defini-la também com uma terceira força, conciliadora das dualidades, das oposições entre estética e técnica, ou entre espírito e matéria. Unificada pela força da Qualidade uma suposta contradição assume sua real natureza de complementaridade.

Na presença da Qualidade o espírito se materializa e a matéria se espiritualiza na consciência do observador. Não há duas coisas separadas, mas uma gradação da percepção que unirá ou separará de acordo com sua Qualidade. Se na Qualidade se unificam o romântico e o clássico, poderíamos também arriscar a afirmação de que em Sócrates se unificam Platão e Aristóteles.

Disse Pirsig:  “Platão é o essencial buscador de Buda que aparece e reaparece em cada geração, se movendo para cima e para baixo através do ‘um’. Aristóteles é o eterno mecânico de motocicletas que prefere o ‘muitos’”.  A Qualidade é também, portanto, o fator unificador entre a “unidade” e a “multiplicidade”, entre o “transcendente” e o “imanente”. “A Qualidade não é algo que você acredita, mas algo que você experimenta.”

Anúncios