Archive for fevereiro \27\UTC 2009

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Alan Moore

fevereiro 27, 2009

alan_moore_pAlan Moore, o autor de algumas histórias em quadrinhos para adultos que fizeram bastante sucesso, tem um vídeo à disposição que vale a pena assistir. O nome é MindScape. Tem um pouco de tudo, desde física quântica, teorias da informação, conspirações e o papel da mídia até arte e magia. No início ele fala de sua biografia e de seus trabalhos mais famosos, como V de Vingança, Watchmen, Do Inferno e o Monstro do Pântano. Mas, aos poucos ele aprofunda algumas de suas visões de mundo que certamente, fazem dele um dos artistas mais interessantes da atualidade.

Num dos trechos ele faz um paralelo entre arte e magia. Afirma que toda a forma de magia é também uma forma de arte, especialmente a escrita. Se o conjunto certo de símbolos ou palavras for usado, o resultado é a mudança de consciência. Ele afirma que, infelizmente, essa ferramenta hoje em dia está nas mãos da mídia, que manipula a realidade com propósitos questionáveis. “O fato, nos dias atuais, é que este poder mágico degenerou em um entretenimento barato e em manipulação. Atualmente, quem usa a magia para dar forma à nossa cultura são os publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, a magia é usada como um opiáceo, para tranqüiliza-las, para faze-las mais manipuláveis. A televisão, com suas palavras mágicas e slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento.”

Seguindo a tradição da magia, ele faz um apelo no sentido de que as pessoas compreendam que dentro delas existe algo precioso que está sendo obliterado por vários fatores, inclusive a cultura de massas. “Parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência de ignorar seu eu, mas que também parecem ter a urgência de obliterarem-se a si próprias. No entanto, é possível entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência porque é muita responsabilidade, realmente possuir tal coisa como uma alma, ou algo igualmente precioso. O que acontece se você a quebrar, ou a perder? Não seria melhor anestesia-la, acalma-la, destruí-la para não viver com a dor de ter que lutar por ela? Creio que é essa a forma com que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e que podem ser vistos como uma tentativa deliberada para destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um eu superior e então, ter que mantê-lo.”

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São John Coltrane, tocai por nós

fevereiro 16, 2009

Sua mãe foi pianista da igreja em que seus avós eram ministros e seu pai tocava violino. Desde o início a vida de John Coltrane estaria intimamente ligada à música. A significante conexão entre religião e música influenciaria fortemente sua carreira. Em 1955 casou-se com Naima, uma mulçumana convertida que lhe colocou em contato com o Islão, e muito provável que também com o sufismo. Nesta época ele supera seus problemas com o álcool e a heroína.

Revigorado, e inspirado por um despertar espiritual, Coltrane retorna ao Jazz em 1957 e produz a partir de então o seu melhor trabalho. Inicia, paralelamente, uma série de viagens pelo mundo, especialmente África e Índia, em busca de algo descrito por Michael Budds como “um conceito universal unificante de todas as crenças”.

A partir da década de 60 a música se torna para ele mais do que simplesmente música, mas uma experiência religiosa, um modo de atingir a transcendência.

Vejam o relato do estudioso Eric Nisenson após uma apresentação de Coltrane: “Provavelmente não foi mais que uma hora, mas o tempo pareceu parar ou no mínimo se tornou irrelevante; eu pude sentir que o resto da audiência, também, estava capturada por esta impressionante performance… Aqui estava uma performance onde não mais se poderia julgar objetivamente a estética; os sentimentos que se produzia eram próximos ao profundo respeito que se tem a um vulcão ou ao espanto mental de uma revelação religiosa”

Em notas de seu álbum “Love Supreme” Coltrane faz a seguinte afirmação:

“Durante o ano de 1957, eu experimentei, pela graça de Deus, um despertar espiritual que me conduziu a uma vida mais rica, plena e produtiva. Neste período, em gratidão, eu humildemente pedi para que me fosse dado os meios e o privilégio de fazer os outros felizes através da música.”

Em 1965, em seu álbum “Meditations” ele fala sobre elevar as pessoas: “… para inspira-los a realizar mais e mais suas capacidades de viver vidas significativas. Porque certamente há significado para a vida”.

Em 1965 grava “OM”, referindo-se ao som sagrado do hinduísmo que simboliza a força primordial do Universo, contendo trechos do Bhagavad-Gita. Em 1966 junto com o também saxofonista Pharaoh Sanders, em um de seus últimos trabalhos, faz referências ao texto budista do Livro Tibetano dos Mortos e recitam uma passagem que descreve a verbalização primal “om” como um denominador cósmico/espiritual de todas as coisas.

Coltrane estudou a música do mundo acreditando que uma estrutura musical universal que transcendesse distinções étnicas poderia alimentar a linguagem mística da música. Seu estudo de música indiana o levou a concluir que certos sons e escalas poderiam “produzir significados emocionais específicos”. Para ele o objetivo do músico é compreender e controlar estas forças produzindo uma resposta da audiência.

Hoje em dia não é incomum que a mera menção de seu nome evoque uma profunda resposta emocional ou mesmo espiritual a um amante do jazz. Muito dos que conhecem seu trabalho se referem a ele como “visionário”, “profeta” e “santo”. Eric Nisenson, no prefácio de seu livro Ascension: John Coltrane and his Quest, diz sobre ele: “Eu encontrei na música de Coltrane não somente a beleza mas também uma genuína elevação para o espírito”. A palavra quest (busca) demonstra o reconhecimento de que sua música busca algo profundo, em suas palavras: “… ele desejou atingir todos nós no centro mais profundo se nossos seres, para elevar-nos e mesmo mudar-nos”.

Uma curiosidade: Em 1971, John Coltrane foi aclamado santo, pela então fundada Saint John Coltrane African Ortodox Church em São Francisco. Onde os cultos são feitos ao som de uma banda de Jazz que toca suas músicas como orações.

Eu sugiro que assistam este vídeo abaixo de 1961, numa situação ótima, isto é, são dez minutos e meio de música extra-ordinária – portanto assistam quando tiverem tempo para saborear cada nota como se estivessem alimentando a própria alma. E Bom Apetite

Para quem quiser se aprofundar, uma bela tese sobre sua música.
http://room34.com/coltrane/thesis

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Deus segundo Laerte

fevereiro 2, 2009

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