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O Tratado do Amor

dezembro 11, 2008

250pxwilliamadolphe_bouguereau_18251905__a_young_girl_defending_herself_against_eros_18801Num dos recitais de Suhrawardi chamado de o “Tratado do Amor”, ele conta a história da tríade primordial que deu início a criação. Ela era composta pela Beleza, Amor e Saudade, que viviam juntas como irmãs em plena harmonia revestindo todo o universo.

Num certo dia, elas ficaram sabendo que havia sido criado um ser que conteria dentro de si toda a dimensão divina e ainda assim todos os atributos da matéria, e por isso era o mais perfeito ser criado. Esta notícia tomou de assalto todas as dimensões superiores, criando um alvoroço em todo o mundo espiritual.

A Beleza, como irmã mais velha, decidiu que viria ao mundo para conhecer esta criatura de quem todos falavam e que rapidamente voltaria com notícias.

Mas chegando lá, ao contemplar o homem e reconhecer nele a Perfeição da qual ela mesma era reflexo, ela penetrou em sua realidade e fundiu-se a ele.

Percebendo a demora do retorno da Beleza, o Amor e a Saudade decidiram descer ao mundo para procurá-la, e quando não a encontraram, foram em busca do homem para saber de seu paradeiro.

Contemplando o homem, eles descobriram que a Beleza havia se tornado sua natureza mais sublime, mas também mais oculta e a única maneira de reencontrá-la era através do próprio homem.

Porém, havia um problema. O homem havia desenvolvido um apego muito intenso a seus aspectos mundanos e esquecido sua real dimensão e propósito, e elas só poderiam reencontrar a Beleza se o homem se recordasse da perfeição e do propósito em que foi criado.

Mas como fazer com que um ser, que agora vagava pelo mundo preso às dimensões mais inferiores de sua natureza, acordasse e pudesse conduzi-las novamente a presença de sua irmã? Como penetrar neste ser, ignorante de seu propósito, para juntos retornarem à presença da Beleza e da própria perfeição?

Foi então que os dois irmãos descobriram que a Saudade deveria ingressar dentro do homem primeiro e, ao infligi-lo com a dor da separação, ela o conduziria à recordação de sua real natureza. Pois somente no sofrimento, que surge ao recordar o que havia esquecido, poderia o homem limpar seu coração de todo apego e ignorância e tornar-se digno de receber o Amor.

E somente assim, juntos, os dois irmãos, a Saudade e o Amor, poderiam finalmente, retornar à presença da Beleza.

Nas palavras do próprio Suhrawardi:

“Você nunca encontrará ninguém que não tenha inclinação para a Beleza. Assim, todos buscam a Beleza e lutam para obtê-la. No entanto, é difícil atingi-la porque a união com ela é possível apenas através da intermediação do Amor. E ele não permite a todos acessa-lo. Ele não se refugia em todos os lugares e nem mostra sua face para todos os olhos. Se por acaso ele encontra alguém que seja digno dessa felicidade, ele envia a Saudade, o guardião do portal, para purificar essa morada e impedir que qualquer um penetre dentro dela. A Saudade é o mensageiro que anuncia a chegada do Amor.”