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Revoluções

novembro 17, 2008

banksy_pTalvez seja a hora de surgir um novo Humanismo que possa penetrar qualquer cultura e sociedade. Não um modelo político ou econômico a ser imposto pelos mais poderosos aos mais fracos. Mas algo capaz de despertar o homem e, a partir dele, infiltrar-se em todos os cantos do mundo.

Como um vírus capaz de minar esta tendência animal, predadora e consumista que molda a sociedade. Um vírus capaz de desestruturar essa cultura de massa, que T. L. W. Adorno traduziu como uma “indústria cultural”, essa prisão que acaba por conduzir os indivíduos a obedecerem os valores, perseguirem os “prêmios” e expressarem os comportamentos que a realidade de consenso e a sociedade, em toda sua inconsciência, determinam.

Na luta por sobreviver esquece-se de viver, e esta é uma perspectiva que anula o indivíduo e o torna inexistente no meio da multidão. São poucos os que questionam esta pobre sobrevivência que se tornou nossas vidas, pois estamos limitados a sempre tentar responder de forma correta para recebermos nossa fatia de mediocridade.

Uma anarquia humanista? Uma revolução, que a partir de cada indivíduo contamine, ao menos, uma massa crítica que imponha uma real mudança? Uma utopia? Talvez, mas ao menos uma esperança.

Mas, ainda assim, a mais importante das revoluções e revoltas é aquela declarada contra nós mesmos. Afinal, quem nos oprime e nos mantêm cativos? Quem consome avidamente todo o lixo que nos ensinaram a engolir e desfila orgulhoso as coleiras de nossa própria escravidão?

Aquele que se revolta com o mundo sem ter assumido o poder sobre si mesmo, aquele que não lutou nas trincheiras de sua própria ignorância, que não sangrou ao arrancar as vendas costuradas em seus próprios olhos, como pode ele falar pelo mundo se não fala nem por si mesmo?! Como pode ter consciência do mundo, aquele que não possui nem a sua própria? Portanto, o vírus mais importante é aquele que infecta nossa própria doença e erradica a ignorância, impregnando nossos corações com o desespero de uma vida desperdiçada em sono e cegueira.

Faz-se urgente que surjam novas atitudes e idéias que espalhem “bombas” capazes de romper com os valores e estruturas tão engessadas que automatizam e aprisionam o ser humano nessa mediocridade tão distante da intensidade e do infinito de possibilidades que nos é possível. Bombas feitas de palavras, de poesia, de música e arte, de beleza, de atitudes, sonhos, idéias e valores. Bombas feitas de esperança. Bombas espalhando um vírus de humanidade e a capacidade de criar e compartilhar momentos, instantes e perspectivas que possam romper e explodir a ordinariedade da vida, revelando-a como ela deve ser: Extraordinária!

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O Aprendiz Emancipado

novembro 7, 2008

nasreddin-winceAs idéias apresentadas nesta resenha foram tiradas de um texto apresentado em um seminário sobre ensino de arquitetura e urbanismo. As idéias, porém, se baseiam no livro “O mestre ignorante” do filósofo Jacques Rancière e os créditos do original são da arquiteta e filósofa Vera M. Pallamim (Revista Pós-22, do programa de pós-graduação da FAU-USP).

O Aprendiz Emancipado

“Hobbes fez um poema mais atento do que Rousseau: o mal social não vem do primeiro que pensou em dizer ‘isso me pertence’; ele vem do primeiro que pensou dizer: ‘não és igual a mim’. A desigualdade não é a consciência de nada, ela é uma paixão primitiva; ou mais exatamente, ela não tem outra causa, a não ser a igualdade. A paixão pela desigualdade é a vertigem da igualdade, a preguiça diante da enorme tarefa que ela [a igualdade] requer (…).” O mestre ignorante p.110

O livro de Rancière nos conta as aventuras intelectuais de Joseph Jacotot, um professor francês que propõe uma revolução no método de ensino. O que se propõe é um método que se contrapõe ao pensamento pedagógico tradicional denominado como “sistema explicador”. Este método tradicional divide o mundo em dois, os sábios e os ignorantes, pautando-se, portanto, numa relação de desigualdade, superioridade e inferioridade. Segundo Jacotot este método institui o incapaz, uma vez que lhe interrompe o movimento da razão e da confiança em si mesmo, e seria, portanto, um verdadeiro método de “embrutecimento”.

Contrapondo-se a este método, Jacotot sugere que o aprendizado seja pautado não pela diferença, mas pela semelhança, não na idéia da relação entre duas inteligências, mas de uma inteligência cujo motor é a vontade. Assume-se assim a posição de igualdade de inteligências, ou seja, da capacidade de aprendizado, mas não do conhecimento.

“A vontade é a ação segundo um movimento próprio…, é o que ‘empurra’ à frente a inteligência, essa habilidade em relacionar, observar, comparar, calcular, fazer e dizer como se fez. … O ser humano é uma vontade munida de inteligência. E o oposto disto, o idiotismo, será entendido… não como uma ausência de capacidade, mas como a ‘sonolência da vontade’, sono da inteligência atenta.”

Para Rancière esta perspectiva tem implicações filosóficas, educacionais e políticas segundo as quais a igualdade não deve ser vista como um efeito “produzido”, mas como ponto de partida. “Assim o ‘mestre ignorante’ exerce não um saber que se impõe diante da ignorância do outro, mas aciona no outro uma vontade de saber, de verificar a própria inteligência”.  É um método que conduz ao reconhecimento em si de suas próprias potencialidades onde a vontade se torna a ferramenta principal que aciona o processo de aprendizagem num processo ininterrupto.

Assim o “método da vontade” se opõe ao “método de embrutecimento”. Longe de ser novidade, Rancière afirma ser o mais antigo de todos, uma vez que cada um de nós pode se lembrar de algo aprendido sem que tenha sido “explicado” por ninguém, a língua materna seria o melhor exemplo disto.

O método praticado por Jacotot orbita em torno das seguintes questões: O que vês? O que pensas disso? O que fazes com isso? Devemos frisar que não implica no abandono da relação mestre-aluno e nem no seu enfraquecimento. Mas numa reformulação desta relação que visa principalmente a emancipação do aluno, sendo, portanto e antes de tudo, um exercício de libertação. O papel do mestre ignorante é oferecer as ferramentas iniciais para o aprendizado e verificar se o aluno esta buscando, o que tem descoberto, como está aplicando sua atenção, enfim, se sua vontade está desperta e ativada. Isto se aplica a qualquer área de conhecimento enquanto movimento de investigação, ou da aprendizagem como ação de busca, resumindo, “projeto como pesquisa”.

O empreendimento em um projeto, seja um projeto profissional, científico, filosófico, artístico, de vida, ou espiritual implicará num movimento de busca cuja intensidade e suas conseqüências se dará pelo exercício da vontade de cada um.

Cabe a nós refletirmos sobre as implicações destas idéias no que se refere ao “campo de força” do mais experiente frente “à realidade do aprendiz”.
 
Com as palavras da autora, conclui-se esta resenha: “O processo de emancipação intelectual… é o caminho do exercício de autodeterminação no pensar, da autonomia do sujeito intelectual, uma via sempre pessoal que percorre um relevo escarpado. … Ninguém se emancipa de uma vez para sempre. Trata-se de um movimento sem fim – tanto para professores quanto para alunos – deparar-se continuamente com novos atritos e rugosidades, ligados a situações e enfrentamentos cada vez mais complexos. Há, contudo,  os que decretam para si mesmos terem atingido “o saber”, e abandonando a busca, descansam suas certezas à sombra da sonolência ou distração da vontade”.