Archive for outubro \30\UTC 2008

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Livre arbítrio

outubro 30, 2008

Certos aspectos da Tradição Zoroastra que foram discutidos no post anterior acabaram gerando um comentário interessante acerca do bem e do mal.

Muito do que acumulamos em termos de culpa é gerado por uma visão dual da realidade que está presente desde sempre. Para compreender e superar essa dualidade é necessário buscar outras perspectivas.

Se considerarmos o conceito que nos revela serem as diversas formas e expressões presentes no universo, manifestações de uma única e mesma realidade, um único e mesmo ser, como podemos considerar a existência de duas realidades distintas? Não podemos. Nesta perspectiva o mal não existe como uma realidade em si, mas surge de uma relação estabelecida entre parâmetros de uma escala. Se, apesar de possuirmos a potencialidade e a possibilidade de nos tornarmos seres humanos, permanecermos como animais, vivendo como primatas capazes de raciocínio lógico, aqui estará o mal. O nosso próprio!

Podemos, inclusive, extrapolar esta discussão relacionando-a ao conceito do livre-arbítrio, que por sua vez está ligado ao conceito de consciência. Não podemos imaginar a existência de uma liberdade de escolha sem que tenhamos consciência. Afinal, o ego e a personalidade geram comportamentos que não são conscientemente desencadeados, mas são reativos e condicionados e, portanto, jamais poderão ser a fonte de uma escolha livre. Assim, não existe livre-arbítrio nesta dimensão de existência.

As escolhas que acreditamos fazer são feitas de forma inconsciente e nos são impostas por nossos condicionamentos reativos que repetem os poucos comportamentos contidos na estrutura da personalidade. Nesta situação onde o funcionamento do homem pouco difere de um animal – ou de uma Máquina, se utilizarmos a terminologia do Quarto Caminho – não podemos, tão pouco, considerar a existência do mal.

Pois um animal, agindo de acordo com seus instintos, comporta-se dentro das possibilidades que sua natureza permite e, portanto, o mal sequer existe neste contexto. Mas se vivemos como animais, mesmo que domesticados e educados, estaremos nós a altura do propósito que nossa natureza nos reserva? Porém, todos estes elementos só aparecem se existir consciência, sem ela não há ser humano e não há livre-arbítrio. Existirá apenas o apego e confusão que estabelece a sensação de ser nesta prisão tão medíocre de comportamentos, emoções e pensamentos.

Estes elementos que sempre se repetem, sempre nos conduzirão para os mesmo lugares e situações, e fornecerão uma única e mesma visão de mundo e de nós mesmos. Este apego e confusão que estabelece nossa sensação de ser nesta prisão, é o que chamamos de ego. E nós, vivendo nesta inconsciência, somos este apego.

Só superaremos esta prisão ao expandirmos a consciência para as infinitas dimensões de ser e realidade que nos são possíveis e nos tornarmos capazes de estabelecer e reconhecer nossa própria sensação de ser em diferentes pontos desse infinito universo.

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Juízo Final? Como assim?

outubro 27, 2008

A tradição Zoroastra teve grande influência na visão de mundo do Ocidente. Ela permeia as tradições espirituais e confere a cada ser humano, a responsabilidade de decidir seu caminho entre duas trajetórias: uma que o conduz à compreensão da vida e de seu propósito, e outra, que o aprisiona numa ilusão cega baseada nas confusões e imposições do ego.

Na tradição Zoroastra, esta dualidade era expressa em termos de uma escolha entre o bem e o mal, entre servir aos anjos de Ormuzd, criador e fonte do bem, ou tornar-se aliado de Ahriman, fonte da corrupção e do mal. O mundo é o local de batalha entre estas duas dimensões, batalha que deverá ser travada na vida, e onde cada ser humano deverá escolher um lado.

Além disso, para essa tradição serão nossas opções que determinarão o nosso pós-morte, e não o julgamento externo de uma deidade punitiva. Pois, durante a vida, nossas ações irão gerar um anjo, um ser celestial criado à imagem do ser que nos tornamos, que nos acompanha durante a vida e que nos receberá após a morte, sendo o responsável por ajudar-nos a cruzar o rio que separa as duas dimensões. Esse anjo terá uma aparência bela ou assustadora, dependendo exclusivamente de nossas ações, e caso ele seja assustador, será nosso horror frente a ele que nos impedirá de cruzar o rio. Nós seremos nosso próprio “inferno”. É interessante ver esta mesma simbologia na história de Dorian Gray, que morre ao contemplar, aterrorizado, a imagem de seu retrato que revela quem ele havia se tornado.

Ao afirmarem que não haverá ninguém para nos julgar no “dia do juízo final” e decidir a que tipo de existência seremos condenados além de nossa própria consciência, eles colocam o problema nas nossas mãos. E se nossa consciência apenas experimentou as dimensões mecânicas da vida, o resultado de nosso auto-julgamento será a continuidade dessa mecanicidade. Nossos hábitos (e somente eles) determinarão nossa existência num futuro provável, da mesma forma que o fazem no momento atual. As imagens sugeridas pelas tradições religiosas de inferno, paraíso, purgatório, com seus deuses, demônios, trevas, medo, fogo, êxtase, parecem apenas descrever as experiências que foram valorizadas, repetidas e reforçadas por cada pessoa ao longo de sua vida.

É comum ver certas escolas e mesmo certas linhas religiosas ou filosóficas afirmando que a vida ou o mundo são o “mal” do qual o discípulo deve afastar-se. Elas têm descartado o poder que a vida tem de conduzir cada um de nós a uma das experiências mais sublimes, que consiste em sermos capazes de encontrar a felicidade em nosso dia a dia. Com seus métodos falhos elas parecem preferir colocar a libertação como uma promessa do porvir, à qual a maioria talvez não tenha acesso, nem agora, nem nunca.

Não há nada que seja possível conquistar num futuro se os esforços corretos não forem feitos agora, de tal forma que possamos usufruir nossas conquistas no momento presente. Se conseguimos viver a vida de forma plena agora, seremos capazes de fazer isso sempre, se mantivermos nossa determinação. Se não é possível fazer isso agora e se não houver uma luta incessante nesse sentido, não seremos capazes de fazer isso jamais. E nesse sentido, não há diferença entre estar vivo ou morto.

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O que é o Tempo?

outubro 7, 2008

O que é o tempo?
A medida de nossas ansiedades e expectativas?
A pressa de tudo que nos falta fazer?
A soma de nossas histórias e memórias?
O desespero dos anos que nos sobram?
A saudade dos anos que passaram?
Talvez, o tempo seja aquilo que surge quando nos ausentamos.
A percepção da vida que não vivemos,
Do ser que não somos,
Dos instantes que não contemplamos…
Talvez, a dor incessante e invisível de ver
A eternidade tornar-se tempo
E escorrer por entre nossos dedos…
Sem jamais voltar.

(A eternidade não se foi
Ou vai…
Somos nós que dormimos
Onde ela não está.)

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A História das Coisas

outubro 2, 2008

Neste momento no qual o mundo se vê frente, talvez, à maior crise econômica de nossa era, não podemos prescindir de uma séria reflexão.

Esse sistema em crise é a crise do que?

Se a partir de hoje o mundo nunca mais será o mesmo, esta idéia tem o duplo efeito de nos causar, ao mesmo tempo, preocupação e esperança.