Archive for setembro \23\UTC 2008

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DASEIN

setembro 23, 2008

“A filosofia só deslancha por uma inserção peculiar de nossa própria existência nas possibilidades fundamentais do Dasein(*) como um todo. Para essa inserção três coisas são de importância decisiva. Primeiro, devemos dar espaço para os seres como um todo. Segundo, devemos nos lançar no nada; em outras palavras, devemos nos libertar daqueles ídolos que todos têm e ante os quais todos se curvam. E finalmente, devemos deixar a amplitude de nossa incerteza tomar seu pleno curso, de modo que retorne à questão básica da metafísica que o próprio nada exige: por que há ser de alguma maneira, e por que não nada?” (Heidegger)

(*) Dasein: “a entidade que em seu ser conhecemos como vida humana” ou que “na especificidade de seu ser…cada um de nós é” e mais, é a entidade “que cada um de nós encontra na asserção fundamental: eu sou”.

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Vida e Poesia

setembro 18, 2008

O maravilhoso vem perdendo espaço para a quantidade infinita de racionalizações, teorias e explicações, que parece estar obscurecendo a percepção das pessoas. O contato com a realidade perdeu o sabor intrínseco que ele contém, de algo quase dionisíaco ou orgiástico, uma festa para os sentidos e para a compreensão da realidade e de si mesmo. Ao contrário disso, as pessoas agem como se tudo parecesse estar morto ou separado.

Cabe a cada um de nós reparar a separação que invadiu os elementos todos da criação (inclusive nós mesmos), unindo-os novamente num todo coerente a partir de nossa própria atuação consciente. Essa perspectiva traz uma sensação de celebração para com a vida, onde tudo está vivo e conectado em um novo padrão de significados, onde as causas e conseqüências dos eventos não mais são frias e lineares, mas são complexas e mostram que há uma rede de conexões que se assemelha a uma boa ‘jam session’ da qual todos nós podemos participar. O poeta Walt Whitman diz que a vida é como um poema, e cada um de nós é chamado a incluir nele uma linha. De um outro poeta, segue as linhas abaixo:

Quero ir convosco,
quero encontrar vossos perigos frente a frente.
Sentir na minha face os ventos que gelaram as vossas,
cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos,
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas,
chegar como vós, enfim, a extraordinários portos!
Fugir convosco à civilização!
Perder convosco a noção de moral!
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!
Beber convosco em mares do sul
Novas selvagerias, novas balbúrdias da alma
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco,
despir de mim o meu traje de civilizado,
a minha brandura de ações,
meu medo inato de cadeias,
minha pacífica vida.
A minha vida sentada, estática e revista!
No mar, no mar,
Por no mar, ao vento, às vagas, a minha vida!
O que quero é levar para a morte
uma alma a transbordar de mar…
(Fernando Pessoa)

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Cotidiano

setembro 8, 2008

A vida do cotidiano é a vida controlada, banal, mutilada. A vida dos papéis a serem exercidos, repetidamente, esculpida em temor ao que os outros esperam, e vigiada, em seus poucos milímetros cúbicos, bem de perto pelos vizinhos.

A vida cotidiana é aquela que a mídia ensina: evite emoções fortes, vigie a tensão, coma pouco, beba pouco, pense o óbvio, exercite-se moderadamente e de forma planejada. Lute por ter uma vida longa, mas viva uma vida em câmera lenta, higiênica, pasteurizada, amorfa. Acredite nos slogans, sonhe, cultive ideologias libertárias, mas não tente jamais transforma-las em algo real – não seja ingênuo. Contenha-se, satisfaça-se com nada, consuma o descartável, deseje apenas dentro dos parâmetros aceitáveis, mantenha laços que o faça sentir-se pertencendo a uma tribo qualquer e jamais contrarie seus princípios e pense por si mesmo ou certamente, você acabará sendo expulso.

Antes, se morria de uma morte feita de vida. Hoje se morre de excesso de zelo, letargia, inércia, e medo. Morre-se quando essa morte que acumulamos em nós mesmos, dia após dia, atinge seu ponto máximo de saturação e coalesce.

Enquanto esse momento não chega, a vida vai se esvaindo até que o tempo chegue ao fim, gasto nesse vazio da ausência de si mesmo, num tique-taque insosso. Onde há apenas cotidiano, repetição, vigilância, aceitação à coação, há apenas a adaptação dos animais. Garante-se a sobrevivência, mas a que custo?

A vida destruída por essa ausência de vida renasce na paixão por destruir a própria vida, no suicídio e na capitulação. “Sou estigmatizado por uma morte torturante e cotidiana em relação á qual a morte verdadeira não apresenta nenhum temor para mim.” (A. Artaud).

Mas, o desespero comum que vem invadindo a vida das massas, e que a consome, é o desespero de uma criança – ingenuamente acredita-se que não há saída ou opção. Esse dia-a-dia contido, de gestos abortados, de rostos cristalizados, onde as pessoas se deixam matar pelo esperado que sempre se realiza tem que ser revisto. Pois não há pior morte que a morte em vida, a morte da ausência da superação e da realização plena.

É o momento do ‘Homem da Recusa’, aquele que diz ‘não’ para essa morte auto-induzida, essa complacência que nos faz transformar a vida numa casa de sombras. Cada um tem em si essa capacidade e está na hora de exercê-la!

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Opressão

setembro 4, 2008

O crescimento do mal estar da civilização está forçando todos os ramos terapêuticos a tomarem o caminho de uma nova demonologia. Tal como antigamente, a invocação, a feitiçaria, a possessão, o exorcismo, a orgia sabática, a metamorfose e o talismã possuíam a capacidade suspeita de curar ou fazer sofrer, também hoje (e mais efetivamente) o aparato que oferece o consolo ao homem oprimido (medicina, ideologia, papéis compensadores, consumo de supérfluos, caminhos para transformação social etc.) alimenta a própria opressão. Existe uma ordem das coisas que é doentia: e é isso que os dirigentes querem esconder a todo custo. Wilhelm Reich explica em uma bela página de “A Função do Orgasmo” como conseguiu curar uma jovem operária vienense após longos meses de tratamento psicanalítico. Ela sofria de uma depressão causada pelas condições de vida e de trabalho. Depois de curada, Reich mandou-a de volta ao seu ambiente. Quinze dias mais tarde, ela se suicidou. É sabido que a lucidez e a honestidade de Reich viriam a condena-lo à exclusão dos circuitos psicanalíticos, ao isolamento, ao delírio e à morte na prisão: não é impunemente que se revela a duplicidade dos demonólogos.

Aqueles que organizam o mundo organizam o sofrimento e sua anestesia, todo mundo sabe. As pessoas em sua maioria vivem como sonâmbulas, divididas entre o temor e o desejo de despertar, encurraladas entre o estado neurótico e a perspectiva traumática de um retorno à experiência vivida, à vida real. Porém, chegou a época em que a manutenção da sobrevivência exige doses de anestésicos que aproximam o organismo do ponto de saturação, desencadeando aquilo que na linguagem da magia se chama “choque em reação.” É a iminência dessa transformação e da sua natureza que permite comparar o atual condicionamento dos seres humanos a um imenso feitiço.

O feitiço pressupõe a existência de uma rede espacial que una os objetos mais afastados com a ajuda de uma simpatia dirigida por leis específicas: analogia formal, coexistência orgânica, simetria funcional, aliança de símbolos etc. As correspondências se estabelecem associando, um número incalculável de vezes, um comportamento com a aparição de um determinado estímulo. Trata-se em resumo de um condicionamento generalizado. Ora, podemos perguntar se a moda hoje difundida, de denunciar um certo condicionamento, propaganda, publicidade, isto é, mídia de massas, não age como um exorcismo parcial que reforça uma maior e mais essencial mistificação por retirar a atenção sobre ela. É fácil censurar o exagero da imprensa vulgar para cair na mentira elegante do Le Monde. A informação, a linguagem, o tempo não são garras gigantescas com as quais o poder manipula a humanidade e a submete à sua perspectiva? As garras não são muito hábeis, é certo, mas sua força é tanto maior quanto menor a consciência dos homens de que podem resistir a elas e que, de fato, com freqüência já lhe resistem espontaneamente. (Raoul Vaneigem, A Arte de viver para as novas gerações. Conrad)