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Pensamento e Poesia

Literatura sobre literatura. Em 1967-68, na Universidade Harvard, Jorge Luis Borges profere, em inglês, uma série de conferências que serão compiladas mais tarde num livro intitulado “Esse Ofício do Verso”. Das seis palestras a penúltima, intitulada “Pensamento e Poesia”, é o objeto desta resenha.

Na música é inseparável forma e substância, ela brota de emoções e nos conduz a estas mesmas emoções. Logo de início Borges conclui ser esta a razão de Walter Pater ter afirmado que toda arte aspira à condição da música.  É desta forma que a poesia, a arte de “tecer palavras”, deve ser algo mais do que afirmou Stevenson, de que o papel do poeta seria converter as palavras, “moedas lógicas”, em mágica. A magia das palavras é sua condição natural, não é o produto do trabalho do poeta, assim, o papel do poeta não é o de convertê-las em algo que não são, mas de reconduzi-las a sua condição original. As palavras, segundo Borges, já nascem como mágica.

É possível estabelecer um paralelo entre o texto e a idéia que Kandinsky expõe em seu livro “O espiritual na Arte” sobre a arte abstrata. Por não ser figurativa, a arte abstrata não se refere a um outro tempo e lugar, mas se realiza como um ato presente, transcendendo uma condição espaço-temporal por falar diretamente ao espectador, despertando nele, como diz Borges: “as emoções da qual ela brotou e as emoções que ela desperta”. Segundo Kandinsky, por não ser representativa de um objeto, mas o objeto em si, a arte dita abstrata deveria ser considerada como a única realmente concreta, pois a representação sim seria uma abstração. Assim se dá com a música, e sobre a poesia Borges nos fala: …“Porém ainda assim tem um sentido – não para a razão, mas para a imaginação”.

Pode-se definir então maneiras de fazer poesia, usar palavras comuns e extrair-lhes mágica, de forma simples ou elaborada, significando coisas corriqueiras ou verdades profundas ou mesmo não significando nada à razão, mas dotadas de sentido estético.  De qualquer forma o que importará é se as palavras estão vivas o mortas, ou seja, se correspondem às emoções do autor.

Voltemos ao nascimento mágico das palavras. Segundo Borges, as palavras também não começaram como abstratas, mas como concretas. Seria, portanto, esta característica que as transforma em coisas vivas, a sua condição poética. Borges cita como exemplo a palavra “thunder” que significa em inglês trovão. Ela se origina de Thunor (Thor), o deus saxão do trovão. Para os antigos saxões não fazia muito sentido perguntar se estavam falando do deus ou do estrondo, porque as palavras não tinham um significado único, elas eram envolvidas de mágica, portanto encerravam em si todo o seu potencial significativo. Resgatar este poder da palavra é, segundo Borges, levar a linguagem de volta às suas fontes. 

Ao citar a cabala judaica, que é tema recorrente em sua obra, abre a possibilidade de aprofundar esta abordagem, uma vez que as línguas antigas preservam algo que a muito se perdeu no texto em prosa, mas que a poesia de alguma forma preserva. Nesta tradição, o poder atribuído às palavras é um tema central. No alfabeto original semítico, no qual se baseia o estudo cabalístico das palavras e é compartilhado hoje tanto pelo árabe como pelo hebraico, não existem vogais escritas, somente pausas preenchidas por uma respiração sonora. De alguma forma seus textos foram feitos para serem lidos em voz alta. Para os antigos semitas a respiração estava entre os maiores mistérios da vida. Respiração, sopro e espírito, são palavras escritas em hebraico com as mesmas consoantes, portanto, apesar de significarem coisas distintas preservam uma raiz comum, uma origem única capaz de evocar todos os seus desdobramentos. A leitura, portanto, exige uma participação ativa do leitor. Ao colocar sua respiração, seu espírito, ele transfere vida ao texto. Para tanto era necessária uma atenção e intenção constantes na leitura, uma vez que uma pausa ou respiração diferente atribuiria um diferente significado às palavras (Tom Cheetham, Green Man ,Earth Angel, Suny, NY 2005). Diferentemente de um texto em prosa, a poesia quando lida sem uma intencionalidade emocional parece perder vida, carece de informações mais sutis que a palavra escrita ou impressa não demonstra. Percebemos isto quando ouvimos diferentes leituras de uma mesma poesia ou texto teatral, a interpretação do ator interfere na mensagem transmitida.

Se a palavra tem como função levar a linguagem de volta as suas fontes, a fonte não é nem linguagem nem palavra, mas um sentimento, ou o local de onde nasce o sentimento. Este sentimento é o sentimento de todas as coisas percebidas, conscientizadas , mas antes de tudo o sentimento de ser, de existir. Assim ao cumpri seu papel, a poesia , antes de dar vida às palavras restitui vida ao próprio homem, o desperta, o faz recordar de si. Por isto emociona, por proporcionar em nós uma realização maior da vida. De uma forma geral este deveria ser o papel da arte. Assim Borges conclui que como a música, que nos toca pela beleza, a poesia nos tocará também, seja por um significado óbvio, seja pelas interpretações que sucinta, ou seja simplesmente pela cadência e musicalidade. Ainda que destituídas de um sentido lógico fará sentido ao despertar e trazer a luz alguma coisa oculta dentro de nós.

A magia de que nos fala Borges, fonte das próprias palavras, é uma condição nossa a ser resgatada, condição sufocada por um processo longo de separação, de cisalhamento de nossa consciência pela supremacia do raciocínio sobre a sensibilidade, como se este fosse capaz de abranger toda a complexidade humana. A poesia, como qualquer forma de arte, vem, como a música, nos restituir um tesouro obscurecido pela aridez fria e unilateral da lógica cartesiana. Não se trata de negar de forma alguma a razão, isto seria recorrer em grave erro, o que se trata é justamente de reconhecer que a experiência humana abrange um leque maior de categorias que podem se integrar num patamar que supera qualquer visão polarizada. E é neste ponto que a poesia nos salva e Jorge Luis Borges veio em nosso auxílio.

“Pensamento e Poesia” em “Esse Ofício do Verbo”, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras.

Um comentário

  1. porqe kandinsk considerava a arte abstrata como umalinguagem universal



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