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Mario Benedetti

Maio 22, 2009

benedettiQue descanse em paz
Enfim
O poeta que dela nos retira.
Que a intensidade leve
Enfim
O poeta que a ela nos convida.
Que fechem teus olhos (cheios de sentido)
Enfim
    Cansados e encantados,
Oh poeta que tornou os nossos
Sem fim…

Exquema

Morreu dia 17/05/2009 o poeta uruguaio Mario Benedetti, um dos grandes nomes da literatura latino americana. Autor de uma vasta obra literária, foi reconhecido internacionalmente na década de 60. Não importa se falando de política ou amor, seus poemas recordam e renovam nossa própria humanidade.

No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma 
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo 

pero si
pese a todo
no puedes evitarlo

y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y  te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas

entonces
no te quedes conmigo.

Não permaneças imóvel
à beira do caminho
não congeles o júbilo
não desejes sem vontade
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te preenchas de calma 
não reserves do mundo
só um canto tranqüilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como sentenças
não permaneças sem lábios
não te durmas sem sonhos
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo

mas se
apesar de tudo
não podes evitar

e congelas o júbilo
e desejas sem vontade
e te salvas agora
e te preenches de calma
e reservas do mundo
só um canto tranqüilo
e te deixas cair as pálpebras
pesadas como sentenças
e te secas sem lábios
e te dormes sem sonhos
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e permaneces imóvel
à borda do caminho
e te salvas

então
não fiques comigo. 

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Universo

Maio 7, 2009

universo1O Universo, que foi criado em três, foi dividido em dois. E tiraram o recheio! Ficaram dois pães sem o hambúrguer… que, afinal, é o que dá o sentido, o nome e sabor ao sanduíche! Retiraram o degradê e ficamos em preto e branco. Sem nada entre eles. Sem o degradê, como podemos saber que não existem separações, não existem limites? Como podemos recordar que há somente uma única cor, que se multiplica em infinitas expressões? Corpo ou espírito, mundo ou céu… e nada entre eles, e nada que os conecte? Apegos ou sacrifícios, imersão ou reclusão, profano ou sagrado…. e nada entre eles?!!! Talvez essa seja a marca da ignorância de nosso tempo. Essa pobreza de nuances, de sutilezas, de símbolos e significados. Porque o sim-bólico (symbolo – do grego) agrega, une, revela… e o dia-bólico (diabolo – do grego) separa, quebra o que estava unido. Não uma entidade diabólica, mas a ignorância sem imaginação, que é incapaz de contemplar significados, de estabelecer relações, restituir os símbolos e penetrar a realidade.

Somente a Imaginação Criativa pode revelar o que está oculto. Imaginação que confere forma ao inteligível, imagem à ideia. Une novamente o que a ignorância separou. Imaginação que também penetra a forma e revela o universo infinito que a antecede e que a contém.

A fantasia cega, a imaginação ilumina, e nos iluminando, ilumina o mundo. Assim, rompe as semelhanças e restitui a imagem, que expressa a idéia, reflexo de sua perfeição. Sem ela o Universo permanece congelado, separado, sem recheio, sem significado, sem sabor.

E nós também.

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A Teofania da Perfeição

Abril 28, 2009

O poema a seguir é o último do livro Kitab al-Tajalliyat, de Ibn Arabi. A tradução escrita foi feita a partir daquela que consta na interpretação de Henry Corbin, fonte confiável para os desconhecedores da língua árabe. Porém, além das diferenças notáveis desta bela  interpretação em vídeo, temos a satisfação de ver os versos ganharem vida numa bela composição de música, voz e imagem.

A Teofania da Perfeição

Ouve, Oh querido amado!
Eu sou a realidade do mundo, o centro da circunferência,
Eu sou as partes e o todo.
Eu sou o propósito estabelecido entre o Céu e a Terra,
Eu criei  percepção em ti somente com o intuito de que seja o objeto de Minha Percepção.

Se então tu Me percebes,  percebes a ti mesmo.
Mas tu não podes Me perceber através de ti.
É através de Meus Olhos que tu Me vês e vês a ti mesmo,
Através de teus olhos tu não podes Me ver.

Querido amado!
Eu tenho te chamado tão frequentemente e tu não Me tens ouvido.
Eu tenho Me mostrado a ti tão frequentemente e tu não Me tens Visto.
Eu tenho exalado minha fragrância tão frequentemente e tu não Me tens sentido,
Alimento saboroso, e tu não Me tens provado.
Por que  não Me podes  alcançar através do objeto que tocas
Ou Me respirar através de doces perfumes?
Por que não Me vês? Por que não Me escutas?
Por que? Por que? Por que?

Para ti Meus encantos superam todos os outros encantos,
E o prazer que Eu te propicio supera todos os outros prazeres.
Para ti eu sou preferível a todas as outras boas coisas,
Eu sou Beleza, Eu sou Graça.

Ama-Me, Ama a Mim somente.
Ama a ti mesmo em Mim, em Mim somente.
Une-te a Mim,
Ninguém é mais íntimo que Eu.
Outros te amam por seus próprios interesses,
Eu te amo por ti mesmo.
E tu, tu foges de Mim.

Querido amado!
Não Me podes tratar bem,
Pois se te aproximas de Mim,
É porque Eu me aproximei de ti.

Eu  sou mais próximo de ti que tu mesmo,
Que a tua alma, que a tua respiração.
Quem entre as criaturas
Te trataria como Eu te trato?
Eu tenho ciúme de ti, por ti,
Não quero que pertenças a mais ninguém,
Nem mesmo a ti próprio.
Sê Meu, sê para Mim como tu és em Mim,
Apesar de que tu nem mesmo percebes isso.

Querido amado!
Vamos em direção à União.
E se nós encontrarmos a estrada
Que conduz à separação,
Nós destruiremos a separação.
Vamos de mãos dadas.
Entremos na presença da Verdade.
Que Ela seja nosso juiz
E imprima Seu selo sobre nossa união
Para sempre.

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Reverse graffiti

Abril 9, 2009

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Qualidade!

Março 13, 2009

pirsig_chris_leg“Qualquer explicação filosófica sobre Qualidade será tanto falsa quanto verdadeira precisamente porque é uma explicação filosófica. O processo da explicação filosófica é um processo analítico, um processo de quebrar algo em sujeitos e predicados. O que quero dizer (assim como todo mundo quer) pela palavra ‘qualidade’ não pode ser quebrado em sujeitos e predicados. Isto não é porque Qualidade é algo tão misterioso, mas porque Qualidade é muito simples, imediata e direta.” – Robert M. Pirsig

Já faz um bom tempo que eu li Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert Maynard Pirsig. Ele, junto com outros autores como Richard Bach e Antoine de Saint-Exupéry, tiveram na minha adolescência grande influência sobre o que ocorreria nos anos seguintes, agindo como sementes de uma inquietação espiritual e minha crescente atração pelo mistério. Pirsing, para mim, se destacou pela profundidade e densidade teórica de seu livro, assim como pela idéia (quase) libertadora de viajar de motocicleta pelo imenso território americano.  O que por um lado ao meu intelecto mal treinado significou um grande esforço, por outro lado, para meu fervor juvenil, foi lenha seca para a fogueira de um anseio que eu já sentia, ainda que não o compreendesse. Ativava-se simultaneamente em mim, pela Qualidade deste livro, o “clássico” e o “romântico”.

Como o próprio título sugere, seu livro enfoca a necessidade de superar a barreira artificial erguida como força contraditória entre  a denominada ‘visão romântica’ e a ‘visão clássica’.

Se para os românticos prevalece o modo imaginativo, intuitivo, emocional, estético, pelo qual os sentimentos predominam sobre os fatos, para os clássicos prevalece a razão e as leis físicas que moldam o pensamento e o comportamento dos corpos. Se o primeiro encontra sua expressão máxima na arte o último a encontrará na ciência. Partindo-se desta dicotomia deduz-se que viajar de motocicleta é romântico enquanto que concerta-las é algo puramente clássico.

As implicações desta dualidade são profundas e o tema é atualíssimo para os que tem lido autores contemporâneos como Tom Cheetham, Peter Lamborn Wilson e Ken Wilber. Esta dicotomia implica não só na separação entre arte e tecnologia, mas entre espírito e matéria e se origina, segundo Cheetham, num processo histórico de mudança da qualidade de nossa percepção. Esta mudança está associada a um condicionamento cultural cuja origem alguns atribuem ao “penso logo existo” de Descartes, mas que tanto Cheetham como Henry Corbin gostam de localizar numa data bem anterior, no século XII quando prevaleceu, a partir dos escritos de Averróis, a filosofia Aristotélica sobre a Platônica.  Na figura logo abaixo, detalhe de uma pintura de Rafael, podemos observar as mãos dos filósofos, Platão aponta para cima e Aristóteles volta a palma da mão para o solo,  uma clara simbologia da oposição de seus pensamentos.

plato_artistVoltemos então para o conceito de “Qualidade” de Pirsig. Esta noção implica em que a máxima socrática “conheça a sim mesmo” é um processo a ser buscado em toda a atividade humana, como por exemplo, na manutenção de uma motocicleta. A “Arte” da manutenção é a “Qualidade” aplicada ao ato. Como falou o próprio Pirsig, “Arte é qualquer coisa que você pode fazer bem. Qualquer coisa que você pode fazer com Qualidade” . E Qualidade é para ele a palavra chave. Com Qualidade, toda a atividade humana é um exercício de meditação. Supera-se aqui qualquer noção preconceitual sobre o mundo como local da corrupção. É nele que colhemos o material de trabalho para a nossa transformação, ele é o laboratório alquímico onde a Qualidade transmutará o denso no sutil. Antes de um processo externo, a transformação do mundo é a transformação do “ser” que percebe o mundo, mudando-se a qualidade da percepção, muda-se o mundo. A Qualidade é a chave que abre a percepção de modo que ela possa perceber o “espírito” em tudo. Pirsig diz: “O Buda repousa tanto sobre uma flor como sobre os circuitos de um computador”.

Qualidade é o dharma hindu, o kaif  sufi e a ‘virtude’ dos antigos gregos. Podemos defini-la também com uma terceira força, conciliadora das dualidades, das oposições entre estética e técnica, ou entre espírito e matéria. Unificada pela força da Qualidade uma suposta contradição assume sua real natureza de complementaridade.

Na presença da Qualidade o espírito se materializa e a matéria se espiritualiza na consciência do observador. Não há duas coisas separadas, mas uma gradação da percepção que unirá ou separará de acordo com sua Qualidade. Se na Qualidade se unificam o romântico e o clássico, poderíamos também arriscar a afirmação de que em Sócrates se unificam Platão e Aristóteles.

Disse Pirsig:  “Platão é o essencial buscador de Buda que aparece e reaparece em cada geração, se movendo para cima e para baixo através do ‘um’. Aristóteles é o eterno mecânico de motocicletas que prefere o ‘muitos’”.  A Qualidade é também, portanto, o fator unificador entre a “unidade” e a “multiplicidade”, entre o “transcendente” e o “imanente”. “A Qualidade não é algo que você acredita, mas algo que você experimenta.”

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Alan Moore

Fevereiro 27, 2009

alan_moore_pAlan Moore, o autor de algumas histórias em quadrinhos para adultos que fizeram bastante sucesso, tem um vídeo à disposição que vale a pena assistir. O nome é MindScape. Tem um pouco de tudo, desde física quântica, teorias da informação, conspirações e o papel da mídia até arte e magia. No início ele fala de sua biografia e de seus trabalhos mais famosos, como V de Vingança, Watchmen, Do Inferno e o Monstro do Pântano. Mas, aos poucos ele aprofunda algumas de suas visões de mundo que certamente, fazem dele um dos artistas mais interessantes da atualidade.

Num dos trechos ele faz um paralelo entre arte e magia. Afirma que toda a forma de magia é também uma forma de arte, especialmente a escrita. Se o conjunto certo de símbolos ou palavras for usado, o resultado é a mudança de consciência. Ele afirma que, infelizmente, essa ferramenta hoje em dia está nas mãos da mídia, que manipula a realidade com propósitos questionáveis. “O fato, nos dias atuais, é que este poder mágico degenerou em um entretenimento barato e em manipulação. Atualmente, quem usa a magia para dar forma à nossa cultura são os publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, a magia é usada como um opiáceo, para tranqüiliza-las, para faze-las mais manipuláveis. A televisão, com suas palavras mágicas e slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento.”

Seguindo a tradição da magia, ele faz um apelo no sentido de que as pessoas compreendam que dentro delas existe algo precioso que está sendo obliterado por vários fatores, inclusive a cultura de massas. “Parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência de ignorar seu eu, mas que também parecem ter a urgência de obliterarem-se a si próprias. No entanto, é possível entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência porque é muita responsabilidade, realmente possuir tal coisa como uma alma, ou algo igualmente precioso. O que acontece se você a quebrar, ou a perder? Não seria melhor anestesia-la, acalma-la, destruí-la para não viver com a dor de ter que lutar por ela? Creio que é essa a forma com que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e que podem ser vistos como uma tentativa deliberada para destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um eu superior e então, ter que mantê-lo.”

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São John Coltrane, tocai por nós

Fevereiro 16, 2009

Sua mãe foi pianista da igreja em que seus avós eram ministros e seu pai tocava violino. Desde o início a vida de John Coltrane estaria intimamente ligada à música. A significante conexão entre religião e música influenciaria fortemente sua carreira. Em 1955 casou-se com Naima, uma mulçumana convertida que lhe colocou em contato com o Islão, e muito provável que também com o sufismo. Nesta época ele supera seus problemas com o álcool e a heroína.

Revigorado, e inspirado por um despertar espiritual, Coltrane retorna ao Jazz em 1957 e produz a partir de então o seu melhor trabalho. Inicia, paralelamente, uma série de viagens pelo mundo, especialmente África e Índia, em busca de algo descrito por Michael Budds como “um conceito universal unificante de todas as crenças”.

A partir da década de 60 a música se torna para ele mais do que simplesmente música, mas uma experiência religiosa, um modo de atingir a transcendência.

Vejam o relato do estudioso Eric Nisenson após uma apresentação de Coltrane: “Provavelmente não foi mais que uma hora, mas o tempo pareceu parar ou no mínimo se tornou irrelevante; eu pude sentir que o resto da audiência, também, estava capturada por esta impressionante performance… Aqui estava uma performance onde não mais se poderia julgar objetivamente a estética; os sentimentos que se produzia eram próximos ao profundo respeito que se tem a um vulcão ou ao espanto mental de uma revelação religiosa”

Em notas de seu álbum “Love Supreme” Coltrane faz a seguinte afirmação:

“Durante o ano de 1957, eu experimentei, pela graça de Deus, um despertar espiritual que me conduziu a uma vida mais rica, plena e produtiva. Neste período, em gratidão, eu humildemente pedi para que me fosse dado os meios e o privilégio de fazer os outros felizes através da música.”

Em 1965, em seu álbum “Meditations” ele fala sobre elevar as pessoas: “… para inspira-los a realizar mais e mais suas capacidades de viver vidas significativas. Porque certamente há significado para a vida”.

Em 1965 grava “OM”, referindo-se ao som sagrado do hinduísmo que simboliza a força primordial do Universo, contendo trechos do Bhagavad-Gita. Em 1966 junto com o também saxofonista Pharaoh Sanders, em um de seus últimos trabalhos, faz referências ao texto budista do Livro Tibetano dos Mortos e recitam uma passagem que descreve a verbalização primal “om” como um denominador cósmico/espiritual de todas as coisas.

Coltrane estudou a música do mundo acreditando que uma estrutura musical universal que transcendesse distinções étnicas poderia alimentar a linguagem mística da música. Seu estudo de música indiana o levou a concluir que certos sons e escalas poderiam “produzir significados emocionais específicos”. Para ele o objetivo do músico é compreender e controlar estas forças produzindo uma resposta da audiência.

Hoje em dia não é incomum que a mera menção de seu nome evoque uma profunda resposta emocional ou mesmo espiritual a um amante do jazz. Muito dos que conhecem seu trabalho se referem a ele como “visionário”, “profeta” e “santo”. Eric Nisenson, no prefácio de seu livro Ascension: John Coltrane and his Quest, diz sobre ele: “Eu encontrei na música de Coltrane não somente a beleza mas também uma genuína elevação para o espírito”. A palavra quest (busca) demonstra o reconhecimento de que sua música busca algo profundo, em suas palavras: “… ele desejou atingir todos nós no centro mais profundo se nossos seres, para elevar-nos e mesmo mudar-nos”.

Uma curiosidade: Em 1971, John Coltrane foi aclamado santo, pela então fundada Saint John Coltrane African Ortodox Church em São Francisco. Onde os cultos são feitos ao som de uma banda de Jazz que toca suas músicas como orações.

Eu sugiro que assistam este vídeo abaixo de 1961, numa situação ótima, isto é, são dez minutos e meio de música extra-ordinária - portanto assistam quando tiverem tempo para saborear cada nota como se estivessem alimentando a própria alma. E Bom Apetite

Para quem quiser se aprofundar, uma bela tese sobre sua música.
http://room34.com/coltrane/thesis

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Deus segundo Laerte

Fevereiro 2, 2009

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Uma alma nova

Janeiro 26, 2009

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“A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos – há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? – e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las. Muda de alma. Como? Descobre-o tu”.
Fernando Pessoa

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O Tratado do Amor

Dezembro 11, 2008

250pxwilliamadolphe_bouguereau_18251905__a_young_girl_defending_herself_against_eros_18801Num dos recitais de Suhrawardi chamado de o “Tratado do Amor”, ele conta a história da tríade primordial que deu início a criação. Ela era composta pela Beleza, Amor e Saudade, que viviam juntas como irmãs em plena harmonia revestindo todo o universo.

Num certo dia, elas ficaram sabendo que havia sido criado um ser que conteria dentro de si toda a dimensão divina e ainda assim todos os atributos da matéria, e por isso era o mais perfeito ser criado. Esta notícia tomou de assalto todas as dimensões superiores, criando um alvoroço em todo o mundo espiritual.

A Beleza, como irmã mais velha, decidiu que viria ao mundo para conhecer esta criatura de quem todos falavam e que rapidamente voltaria com notícias.

Mas chegando lá, ao contemplar o homem e reconhecer nele a Perfeição da qual ela mesma era reflexo, ela penetrou em sua realidade e fundiu-se a ele.

Percebendo a demora do retorno da Beleza, o Amor e a Saudade decidiram descer ao mundo para procurá-la, e quando não a encontraram, foram em busca do homem para saber de seu paradeiro.

Contemplando o homem, eles descobriram que a Beleza havia se tornado sua natureza mais sublime, mas também mais oculta e a única maneira de reencontrá-la era através do próprio homem.

Porém, havia um problema. O homem havia desenvolvido um apego muito intenso a seus aspectos mundanos e esquecido sua real dimensão e propósito, e elas só poderiam reencontrar a Beleza se o homem se recordasse da perfeição e do propósito em que foi criado.

Mas como fazer com que um ser, que agora vagava pelo mundo preso às dimensões mais inferiores de sua natureza, acordasse e pudesse conduzi-las novamente a presença de sua irmã? Como penetrar neste ser, ignorante de seu propósito, para juntos retornarem à presença da Beleza e da própria perfeição?

Foi então que os dois irmãos descobriram que a Saudade deveria ingressar dentro do homem primeiro e, ao infligi-lo com a dor da separação, ela o conduziria à recordação de sua real natureza. Pois somente no sofrimento, que surge ao recordar o que havia esquecido, poderia o homem limpar seu coração de todo apego e ignorância e tornar-se digno de receber o Amor.

E somente assim, juntos, os dois irmãos, a Saudade e o Amor, poderiam finalmente, retornar à presença da Beleza.

Nas palavras do próprio Suhrawardi:

“Você nunca encontrará ninguém que não tenha inclinação para a Beleza. Assim, todos buscam a Beleza e lutam para obtê-la. No entanto, é difícil atingi-la porque a união com ela é possível apenas através da intermediação do Amor. E ele não permite a todos acessa-lo. Ele não se refugia em todos os lugares e nem mostra sua face para todos os olhos. Se por acaso ele encontra alguém que seja digno dessa felicidade, ele envia a Saudade, o guardião do portal, para purificar essa morada e impedir que qualquer um penetre dentro dela. A Saudade é o mensageiro que anuncia a chegada do Amor.”