“Pensar não mais significa nada além de checar, a cada momento, se a pessoa pode, na verdade, pensar ou não.”
Há 40 atrás, em 6 de agosto de 1969, morreu o filósofo alemão Theodor Adorno, um dos membros da Escola de Frankfurt. Essa Escola foi fundada por um grupo de intelectuais associados à Universidade de Frankfurt, cuja principal contribuição foi a produção de uma série de estudos teóricos sobre cultura e sociedade. Esses estudos foram inicialmente chamados de “teoria crítica” e mais tarde, passaram a ser considerados uma forma específica de se estudar filosofia, forma esta ensinada e praticada atualmente, em diversas universidades ao redor do mundo.
Ele escreveu alguns volumes sobre temas clássicos da filosofia, como a razão e moralidade. Porém, ele escreveu também sobre temas nada convencionais como a indústria de entretenimento de massas, cunhando para isso um termo que hoje em dia é muito aplicado: a “indústria cultural.” Nessa indústria, os saberes e sentimentos humanos são reduzidos à mercadoria, as pessoas são consideradas como meros consumidores e a cultura passou a ser nada mais que uma forma de manipulação velada que induz as pessoas à aquisição de bens de consumo.
Ele analisou o fenômeno social como um mero subproduto da manipulação daqueles que controlam as mídias. Sejam as ideias filosóficas mais abstratas, ou a razão e o pensamento, ou um filme comercial, ou uma propaganda na TV – na ausência de uma análise crítica mínima – nada disso deve ser considerado como arte, ou cultura, ou humanismo, mas sim, como subproduto de ideias que são impostas aos desavisados, de forma alienante e massificadora.
Ele afirma que, mesmo nas áreas onde as pessoas acreditam ser genuinamente livres, essa dominação é, na verdade, perpetuada – a liberdade lhes é negada e o desenvolvimento de uma consciência crítica, obstruído. Assim, a sociedade de consumo, a cultura e arte que ela produz, estão baseadas nessa negação sistemática de uma liberdade verdadeira.
Adorno discorda dos sociólogos que argumentam que as sociedades capitalistas são complexas e heterogêneas. Ele insiste que a indústria cultural mantém um sistema uniforme, ao qual todos devem se conformar. Ela manipula as pessoas no sentido de despertar certos desejos, necessidades ou crenças que possam ser associadas ao consumo, gerando uma sociedade de autômatos que não pensam por si mesmos: apenas consomem e replicam os mesmos pensamentos e necessidades.
O objetivo dessa indústria é a produção de bens que são consumíveis, lucrativos e, de preferência, descartáveis, garantindo sua própria continuidade. Assim, a forma como a sociedade entende a si mesma e se expressa, dentro dos pressupostos de Adorno, passou a ser o subproduto de um empreendimento industrial global e multibilionário, que visa o lucro, como qualquer outro empreendimento comercial. Essa indústria controla e molda as premissas que definem o que é a vida e quais os objetivos que individualmente devem ser buscados, gerando não só uma uniformidade em termos de pensamento, mas um sofrimento exacerbado em uma grande massa de indivíduos que não têm acesso aos bens de consumo que lhe são impostos. As conseqüências dessa visão são óbvias e são, a todo o momento, visíveis na desagregação presente na estrutura social.
Sua visão não consiste apenas numa simples crítica a modelos políticos, sociais, culturais ou econômicos. Mas principalmente, numa crítica à perda da capacidade humana de consciência. Essa lacuna se expressa na perda de um sentido de eu que se coloca acima do que é veiculado na mídia, numa diminuição da capacidade de perceber uma perspectiva menos imediatista e mais abrangente e na capacidade de aprofundar um pensamento crítico e ponderado. Essa capacidade crítica, atualmente, é fundamental para que as posturas do ser humano frente aos modelos possam ser mais bem avaliadas, e que suas conseqüências sejam adequadamente consideradas para cada indivíduo e para a sociedade como um todo.