
Já falamos sobre o Mundo Imaginal, mas acho que cabe aqui um resumo antes de ingressar no assunto deste post.
Esse Mundo tem sido localizado pelos estudiosos (especialmente, Avicena, Suhrawardi e Henri Corbin) em uma posição intermediária entre a realidade material perceptível pelos sentidos e um mundo de outra natureza ou, segundo os autores, um mundo espiritual. Ele seria um istmo (em persa: barzak), um caminho de acesso ou de passagem entre duas dimensões de realidade. Ele tem sido chamado de “terra do não-onde” (na-koja abad) sinalizando que ele está situado além de toda a localização geográfica possível de ser determinada. Na astronomia geocêntrica, baseada na cosmologia grega, ele foi posicionado além da Esfera das Estrelas Fixas, ou seja, em um local que se situa além de todo o universo conhecido.
Ele é também chamado de “mundo dos arquétipos” (ou das “imagens”) (alam-al-mithal) e é dito ser o local onde se torna possível acessar as concepções originais de tudo o que existe na realidade perceptível pelos sentidos e por isso, é comum ver esse conceito relacionado com o Mundo das Ideias do Platonismo.
Da mesma forma que a percepção da realidade material necessita dos órgãos dos sentidos, a percepção desse Mundo necessita também de uma capacidade especial, que é chamada de Imaginação Ativa. Essa capacidade é desenvolvida através de técnicas específicas, de tal modo a permitir que a pessoa possa interagir com esse tipo de realidade e assim, obter o conhecimento inerente desse Mundo. Esse conhecimento, basicamente, fundamenta-se na percepção de novos e mais abrangentes significados para a existência, tanto de si mesmo quanto da criação. E segundo os estudiosos do assunto, essa capacidade nada teria a ver com a imaginação comum, que fundamenta os processos fantasiosos dos momentos de devaneio.
No entanto (e aqui começa de verdade o assunto desse post) encontrei esses dias uma citação de Hubert Benoit (The supreme doctrine. 1955) que diz assim: “Devemos nos perguntar como [qualquer pessoa] pode vir a aceitar seu estado [...] temporal, limitado e mortal, de estar separada de uma totalidade. Esse estado é totalmente inaceitável em termos emocionais. Como pode uma pessoa viver dessa maneira? Ela é capaz de lidar com essa situação insustentável através do jogo de sua imaginação, uma faculdade que sua mente possui de recriar um mundo subjetivo, cujo princípio motor agora é a própria pessoa. O homem nunca iria se resignar em não ser o único poder propulsor do universo, se ele não tivesse a faculdade consoladora de criar um universo para si próprio, um universo que ele cria completamente sozinho.”
Assim, mesmo a imaginação comum apresentaria a função algo bombástica de gerar uma “bolha” de realidade dentro da qual cada pessoa brinca de criador. Porém, apesar de criarmos um universo subjetivo, só para nós, não me parece que o criamos estritamente sozinhos, como diz o autor. A realidade criada é mais ou menos compartilhada e assim, tornada consensual – e é justamente esse consenso que torna a pessoa viável na sociedade. Mas, por outro lado, é também este consenso que permite a reprodução dos padrões de dominação e poder dentro da sociedade através da limitação da consciência, perpetrada principalmente pela propaganda e a mídia de massa, entre outros fatores.
E, além disso, essa realidade de consenso imaginada pelas pessoas acaba mantendo certas visões de mundo que talvez sejam apenas limitadas e ilusórias, frutos de uma capacidade imaginativa pobre e enviesada. Nesse contexto, o desenvolvimento da Imaginação Ativa poderia resultar em uma cura para estas ilusões, demonstrando num primeiro momento sua própria natureza fantasiosa, e depois expandindo a consciência para muito além da fina membrana que determina nosso confinamento em uma bolha estreita de realidade.