
Sobre o nosso modo de estar no mundo
Junho 4, 2009
Não é de hoje que se fala em crise habitacional, depois de mais de um século de experiências, erros e êxitos, o pensamento de Heidegger poderá ser de grande valor por nos trazer uma reflexão sobre a própria essência do habitar. Não se trata, portanto, segundo o que pode nos trazer tal reflexão, em simplesmente enumerar o déficit e propor a construção de habitações; a questão qualitativa, fundamental para a validade de um projeto no tempo, passa pelo conhecimento que o modo como construímos e habitamos é antes de tudo o modo de estarmos no mundo. Re-estabelecer uma ligação rompida entre o nós e a essência das coisas que nos rodeiam, ligação esta que é, no fundo, uma ligação com a nossa própria essência, torna-se para Heidegger uma questão fundamental.
O habitar não se limita a uma habitação, no sentido de uma casa ou de um abrigo, mas estende-se na medida em que o espaço construído é palco para a vida. Habitamos a casa, a rua, o bairro, a cidade, habitamos também os espaços que surgem das relações que estabelecemos com os outros, habitamos nossos pensamentos e sentimentos, medos e aspirações. Habitar é a nossa forma de estar no mundo e a partir desta forma construímos a realidade que nos circunda. Deste modo poderíamos afirmar que a finalidade de todo construir é habitar.
Mas se da forma mais óbvia tomarmos a relação entre construir e habitar como uma relação meio-fim, Heidegger irá nos alertar que isso não é suficiente se desejarmos compreender suas relações essenciais. E será na busca daquilo que ele chama do vigor essencial de habitar e construir que ambos se apresentarão nas suas relações e significados mais profundos.
O meio de acessar o vigor essencial de alguma coisa está, segundo Heidegger, na própria linguagem que a representa. Isso porque a nossa relação com as coisas permanece habitualmente em um nível cotidiano, imediato e superficial. Ao nos contentarmos com um modo habitual de compreensão vela-se a nós a natureza essencial das coisas; o que temos não é ainda de fato uma compreensão, mas uma pré-compreensão. Decorre desta pré-compreensão um discurso inautêntico que é perpetuado, passado adiante através do modo como nos comunicamos com o mundo e com os outros. O discurso inautêntico é tornado coletivo e perpetuado pelo consenso, a continuidade condicionada do discurso. Assim temos que buscar dentro do inautêntico as reverberações do autêntico por nós mesmos encoberto, trazendo à tona o ser verdadeiro das coisas, e assim fazendo, re-velar em nós mesmos esta mesma autenticidade… leia o texto completo