Talvez seja a hora de surgir um novo Humanismo que possa penetrar qualquer cultura e sociedade. Não um modelo político ou econômico a ser imposto pelos mais poderosos aos mais fracos. Mas algo capaz de despertar o homem e, a partir dele, infiltrar-se em todos os cantos do mundo.
Como um vírus capaz de minar esta tendência animal, predadora e consumista que molda a sociedade. Um vírus capaz de desestruturar essa cultura de massa, que T. L. W. Adorno traduziu como uma “indústria cultural”, essa prisão que acaba por conduzir os indivíduos a obedecerem os valores, perseguirem os “prêmios” e expressarem os comportamentos que a realidade de consenso e a sociedade, em toda sua inconsciência, determinam.
Na luta por sobreviver esquece-se de viver, e esta é uma perspectiva que anula o indivíduo e o torna inexistente no meio da multidão. São poucos os que questionam esta pobre sobrevivência que se tornou nossas vidas, pois estamos limitados a sempre tentar responder de forma correta para recebermos nossa fatia de mediocridade.
Uma anarquia humanista? Uma revolução, que a partir de cada indivíduo contamine, ao menos, uma massa crítica que imponha uma real mudança? Uma utopia? Talvez, mas ao menos uma esperança.
Mas, ainda assim, a mais importante das revoluções e revoltas é aquela declarada contra nós mesmos. Afinal, quem nos oprime e nos mantêm cativos? Quem consome avidamente todo o lixo que nos ensinaram a engolir e desfila orgulhoso as coleiras de nossa própria escravidão?
Aquele que se revolta com o mundo sem ter assumido o poder sobre si mesmo, aquele que não lutou nas trincheiras de sua própria ignorância, que não sangrou ao arrancar as vendas costuradas em seus próprios olhos, como pode ele falar pelo mundo se não fala nem por si mesmo?! Como pode ter consciência do mundo, aquele que não possui nem a sua própria? Portanto, o vírus mais importante é aquele que infecta nossa própria doença e erradica a ignorância, impregnando nossos corações com o desespero de uma vida desperdiçada em sono e cegueira.
Faz-se urgente que surjam novas atitudes e idéias que espalhem “bombas” capazes de romper com os valores e estruturas tão engessadas que automatizam e aprisionam o ser humano nessa mediocridade tão distante da intensidade e do infinito de possibilidades que nos é possível. Bombas feitas de palavras, de poesia, de música e arte, de beleza, de atitudes, sonhos, idéias e valores. Bombas feitas de esperança. Bombas espalhando um vírus de humanidade e a capacidade de criar e compartilhar momentos, instantes e perspectivas que possam romper e explodir a ordinariedade da vida, revelando-a como ela deve ser: Extraordinária!


As idéias apresentadas nesta resenha foram tiradas de um texto apresentado em um seminário sobre ensino de arquitetura e urbanismo. As idéias, porém, se baseiam no livro “O mestre ignorante” do filósofo Jacques Rancière e os créditos do original são da arquiteta e filósofa Vera M. Pallamim (Revista Pós-22, do programa de pós-graduação da FAU-USP).