Certos aspectos da Tradição Zoroastra que foram discutidos no post anterior acabaram gerando um comentário interessante acerca do bem e do mal.
Muito do que acumulamos em termos de culpa é gerado por uma visão dual da realidade que está presente desde sempre. Para compreender e superar essa dualidade é necessário buscar outras perspectivas.
Se considerarmos o conceito que nos revela serem as diversas formas e expressões presentes no universo, manifestações de uma única e mesma realidade, um único e mesmo ser, como podemos considerar a existência de duas realidades distintas? Não podemos. Nesta perspectiva o mal não existe como uma realidade em si, mas surge de uma relação estabelecida entre parâmetros de uma escala. Se, apesar de possuirmos a potencialidade e a possibilidade de nos tornarmos seres humanos, permanecermos como animais, vivendo como primatas capazes de raciocínio lógico, aqui estará o mal. O nosso próprio!
Podemos, inclusive, extrapolar esta discussão relacionando-a ao conceito do livre-arbítrio, que por sua vez está ligado ao conceito de consciência. Não podemos imaginar a existência de uma liberdade de escolha sem que tenhamos consciência. Afinal, o ego e a personalidade geram comportamentos que não são conscientemente desencadeados, mas são reativos e condicionados e, portanto, jamais poderão ser a fonte de uma escolha livre. Assim, não existe livre-arbítrio nesta dimensão de existência.
As escolhas que acreditamos fazer são feitas de forma inconsciente e nos são impostas por nossos condicionamentos reativos que repetem os poucos comportamentos contidos na estrutura da personalidade. Nesta situação onde o funcionamento do homem pouco difere de um animal – ou de uma Máquina, se utilizarmos a terminologia do Quarto Caminho – não podemos, tão pouco, considerar a existência do mal.
Pois um animal, agindo de acordo com seus instintos, comporta-se dentro das possibilidades que sua natureza permite e, portanto, o mal sequer existe neste contexto. Mas se vivemos como animais, mesmo que domesticados e educados, estaremos nós a altura do propósito que nossa natureza nos reserva? Porém, todos estes elementos só aparecem se existir consciência, sem ela não há ser humano e não há livre-arbítrio. Existirá apenas o apego e confusão que estabelece a sensação de ser nesta prisão tão medíocre de comportamentos, emoções e pensamentos.
Estes elementos que sempre se repetem, sempre nos conduzirão para os mesmo lugares e situações, e fornecerão uma única e mesma visão de mundo e de nós mesmos. Este apego e confusão que estabelece nossa sensação de ser nesta prisão, é o que chamamos de ego. E nós, vivendo nesta inconsciência, somos este apego.
Só superaremos esta prisão ao expandirmos a consciência para as infinitas dimensões de ser e realidade que nos são possíveis e nos tornarmos capazes de estabelecer e reconhecer nossa própria sensação de ser em diferentes pontos desse infinito universo.


A tradição Zoroastra teve grande influência na visão de mundo do Ocidente. Ela permeia as tradições espirituais e confere a cada ser humano, a responsabilidade de decidir seu caminho entre duas trajetórias: uma que o conduz à compreensão da vida e de seu propósito, e outra, que o aprisiona numa ilusão cega baseada nas confusões e imposições do ego. 
