A vida do cotidiano é a vida controlada, banal, mutilada. A vida dos papéis a serem exercidos, repetidamente, esculpida em temor ao que os outros esperam, e vigiada, em seus poucos milímetros cúbicos, bem de perto pelos vizinhos.
A vida cotidiana é aquela que a mídia ensina: evite emoções fortes, vigie a tensão, coma pouco, beba pouco, pense o óbvio, exercite-se moderadamente e de forma planejada. Lute por ter uma vida longa, mas viva uma vida em câmera lenta, higiênica, pasteurizada, amorfa. Acredite nos slogans, sonhe, cultive ideologias libertárias, mas não tente jamais transforma-las em algo real – não seja ingênuo. Contenha-se, satisfaça-se com nada, consuma o descartável, deseje apenas dentro dos parâmetros aceitáveis, mantenha laços que o faça sentir-se pertencendo a uma tribo qualquer e jamais contrarie seus princípios e pense por si mesmo ou certamente, você acabará sendo expulso.
Antes, se morria de uma morte feita de vida. Hoje se morre de excesso de zelo, letargia, inércia, e medo. Morre-se quando essa morte que acumulamos em nós mesmos, dia após dia, atinge seu ponto máximo de saturação e coalesce.
Enquanto esse momento não chega, a vida vai se esvaindo até que o tempo chegue ao fim, gasto nesse vazio da ausência de si mesmo, num tique-taque insosso. Onde há apenas cotidiano, repetição, vigilância, aceitação à coação, há apenas a adaptação dos animais. Garante-se a sobrevivência, mas a que custo?
A vida destruída por essa ausência de vida renasce na paixão por destruir a própria vida, no suicídio e na capitulação. “Sou estigmatizado por uma morte torturante e cotidiana em relação á qual a morte verdadeira não apresenta nenhum temor para mim.” (A. Artaud).
Mas, o desespero comum que vem invadindo a vida das massas, e que a consome, é o desespero de uma criança – ingenuamente acredita-se que não há saída ou opção. Esse dia-a-dia contido, de gestos abortados, de rostos cristalizados, onde as pessoas se deixam matar pelo esperado que sempre se realiza tem que ser revisto. Pois não há pior morte que a morte em vida, a morte da ausência da superação e da realização plena.
É o momento do ‘Homem da Recusa’, aquele que diz ‘não’ para essa morte auto-induzida, essa complacência que nos faz transformar a vida numa casa de sombras. Cada um tem em si essa capacidade e está na hora de exercê-la!
