Sonhei que o medo da liberdade havia sumido. Que a humanidade havia acordado de manhã e havia dentro desse despertar, o sentimento de que tudo aquilo que nos amedronta e oprime havia perdido o poder sobre nós.
Alguns piraram, é verdade, mas a maioria não. A maioria saiu pelas ruas e olhou ao redor de si com assombro porque havia uma nova capacidade de ver o mundo sem os véus do medo, da culpa, do sono-acordado, da ignorância, da opressão, da crença cega numa série de imposições vindas de fora. Havia só o respirar constante de um ar novo, uma curiosidade intrínseca acerca do “outro,” uma vontade de chegar perto, de ver e ouvir.
Aquela coisa tão simples e tão esquecida que se chama “prestar atenção” de repente estava inteira e presente e havia se transformado em um tipo de serviço, algo que é feito em nome de um bem maior. As pessoas “prestavam” atenção ao seu redor, ao outro e à realidade. E o ambiente ao redor, o outro e a realidade “prestavam” atenção de volta, numa troca – um tributo sendo compartilhado, uma forma comunal de gratidão.
Naquele dia de liberdade as pessoas foram capazes de se lembrar porque, afinal de contas, elas estão aqui, e do que, de fato, é constituído o mundo. As ansiedades, inibições, hesitações, dúvidas, inseguranças – de tudo isso estávamos livres e andávamos agora numa realidade que já não estava mais separada de nós por valores irreais atrás dos quais, antes, nos escondíamos.
E como foi que o sonho acabou? Da maneira que os sonhos bons acabam. Deixando um segredo que fica sendo constantemente sussurrado ao longo do dia – uma voz bem suave que repete assim: “não esquece… não esquece…”.



É por isso que acreditamos em estudar e discutir conceitos, desenvolver e praticar técnicas e exercícios e viver tudo isso no dia a dia, ou seja, viver a vida de verdade, para que nasça em nós uma nova visão e um novo estado de ser. Tudo isso porque necessitamos urgentemente olhar diretamente para a realidade, sem filtros que escondam a presença da beleza, amor, liberdade e felicidade e nos induzam a pensar que essas coisas estão mortas. Necessitamos estar diante dessa presença agora e não amanhã, precisamos vê-la em todos os lugares e não só nos becos escuros da nossa fantasia.

Literatura sobre literatura. Em 1967-68, na Universidade Harvard, Jorge Luis Borges profere, em inglês, uma série de conferências que serão compiladas mais tarde num livro intitulado “Esse Ofício do Verso”. Das seis palestras a penúltima, intitulada “Pensamento e Poesia”, é o objeto desta resenha.
