Um dos contos de Jorge Luis Borges (As Ruínas Circulares) fala sobre um homem, que viaja até um local específico com o propósito único de sonhar. Mas, longe de deixar que o sonho surja ao acaso, esse homem tem como objetivo específico, sonhar um outro homem, e assim, noite após noite, ele o molda com cuidado e carinho. Depois de alguns percalços, finalmente, o homem sonhado desperta dentro do sonho do homem que sonhava, e este último então, liberta seu Adão onírico do mundo do sonho. E aquele homem que fora sonhado vem à vida, em um local próximo dali. Antes, porém, para protege-lo, o criador faz a criatura esquecer-se de sua origem e assim, imagina que ele viverá e encontrará a felicidade. No entanto, como o homem sonhado havia sido forjado no templo do fogo, ele se torna imune a esse elemento, e esse fato faz com que ele seja detectado como um homem que não pertence ao mundo dos homens. Logo, as notícias desse homem extraordinário chegam aos ouvidos do homem que o sonhara e em meio ao desespero, ele percebe que sua criação corre perigo. Porém, quase ao mesmo tempo, um incêndio concêntrico se espalha pelas redondezas. O homem que sonhara tenta escapar, mas então, pela primeira vez, ele percebe que o fogo não o consome, e descobre-se igualmente imune; ele mesmo é o resultado do sonho sonhado por outra pessoa.
Os filósofos modernos têm sugerido que não existe uma única realidade (ou uma realidade objetiva), mas que toda a realidade é apenas pessoal. Cada um gera sua própria realidade e a “sonha,” ou seja, projeta sua visão pessoal de realidade para fora de si mesmo, vivendo-a como se ela fosse real.
Assim, toda a realidade é uma representação – não existe uma realidade com “R” maiúsculo, mas representações diferentes geradas por pessoas diferentes. E me parece que isso é exatamente o que se espera: múltiplas visões que quando somadas, talvez então possam refletir o todo que reside velado na multiplicidade. Porém, certamente, é necessário um outro tipo de sonhador que seja capaz de sonhar esse tipo de realidade.
Mas, já falamos em outros posts sobre mídia e cultura de massas, tema esse recorrente aqui no Exquema. Um dos problemas da atuação dos veículos midiáticos passa por essa questão acima: a capacidade das sociedades em gerar múltiplas realidades tem sido dificultada pela atuação da mídia. A mídia sonha o sonho dos mundos, contribuindo para que as pessoas deixem de sonhar seus próprios mundos e realidades. Ela acaba sendo a geradora e mantenedora da realidade de consenso, e as pessoas, como não são mais capazes de sonhar, passam a sonhar essa realidade. Elas são como sonâmbulos, passivos frente a um sonho imposto, e acabam atuando quase como co-criadores dessa realidade que é mantida graças à ausência de outros sonhos sonhados.
E o pior: já não parece ser mais necessário desenvolver a consciência baseada na razão, reflexão, censo crítico: a mídia empresta (impõe) a razão dela para todos. E um homem inconsciente de si e da realidade se torna um homem-máquina; apenas mais uma engrenagem de um sistema. Tudo lhe acontece; ele não é o sujeito (o agente) do mundo, mas, uma marionete que é empurrada de um lado para outro. Sua busca se reduz a satisfazer mais uma necessidade premente e doentia de ser ou obter algo que nem mesmo faria algum sentido para ele se ele tivesse liberdade e capacidade de sonhar sua própria realidade.
Esses veículos de cultura de massas contribuem para gerar e manter um padrão inconsciente de percepção de si mesmo e do mundo. Impondo esses padrões eles “desligam” as pessoas da realidade de tal forma que elas vivem a realidade que eles geram, apenas. Ou seja, o problema maior parece ser esse achatamento em termos da consciência e, ao mesmo tempo, a saída para se lidar com isso passa, necessariamente, por ai também.
Da mesma forma que o personagem do Borges, em algum momento, será necessário perceber que a realidade de consenso vem sendo gerada por alguém – aquilo que cada pessoa pensa que é ela mesma e a realidade na qual ela vive, consiste apenas no produto do sonho de outrem.




Gurdjieff (1866-1949) nasceu na fronteira da Armênia, em Alexandropol e é o fundador do Quarto Caminho, uma escola que visa despertar seus alunos para uma nova perspectiva de si mesmos e da realidade. Uma das frases mais famosas atribuídas a ele e que sintetiza suas ideias é: “O homem vive sua vida no sono, e no sono ele morre.” Talvez a herança mais importante da Escola de Gurdjieff tenha sido o fato que, essa ideia básica de que o homem está adormecido acabou por ser incorporada nas massas e passou a ser praticamente de domínio público. É importante frisar que essa idéia em si não é nova, mas, ela parece ter sido incorporada depois do trabalho de Gurdjieff e seus discípulos.
“Pensar não mais significa nada além de checar, a cada momento, se a pessoa pode, na verdade, pensar ou não.”
