Henry Corbin foi um filósofo e teólogo nascido em Paris, e tem sido considerado um dos maiores eruditos em filosofia e misticismo. Ele foi professor da Universidade de Sorbornne (França) e da Universidade de Teerã. Participou das conferências de Eranus, na Suíça, juntamente com Jung e Durand, além de ter sido o primeiro a traduzir as obras de Martin Heidegger e Karl Barth para o francês. Ele introduziu o conceito do Mundo Imaginal no pensamento do ocidente, que influenciou o desenvolvimento da psicologia arquetípica de Hillman. É um dos tradutores mais importantes da obra de Surahwardi e Ibn Arabi. Porém seu maior legado foi uma nova base de compreensão para as religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), livre de limitações fundamentalistas de qualquer ordem.
Longe de ter um interesse apenas acadêmico sobre esses assuntos, ele mesmo descreve como foi tocado, em sua juventude, à beira de um lago, por certas experiências que nortearam sua vida: “Tudo é apenas revelação… as nuvens estão claras, os pinheiros ainda não escureceram e a luz do lago os faz brilhar… tudo é verde. Não é necessário empertigar-se como um conquistador e querer dar nomes às coisas; elas é que dirão a você o que elas são, se você ouvir, se você ansiar por isso como um amante. E subitamente, na paz imperturbável desta floresta do norte, a Terra vem até você, visível como um Anjo ou talvez como uma Mulher, e nesta solidão densamente povoada e intensamente verde, o Anjo se apresenta também recoberto por um manto verde, o verde da terra, do silêncio e da verdade. Então, surge em você toda a doçura que está presente nesse momento de entrega a esse abraço triunfante. A cada momento em que você compreende a verdade daquilo que se apresenta, onde você ouve o Anjo, a Terra e a Mulher, você recebe Tudo, Tudo. Você, em sua pobreza absoluta, é o necessitário, você é o homem; e ele é o Divino, e você não pode conhecê-Lo, ou ao Anjo, ou à Terra, ou à Mulher. Você deve ser encontrado, tomado, conhecido – só assim eles poderão lhe falar. Do contrário, você permanecerá só.”
Não é de hoje que se fala em crise habitacional, depois de mais de um século de experiências, erros e êxitos, o pensamento de Heidegger poderá ser de grande valor por nos trazer uma reflexão sobre a própria essência do habitar. Não se trata, portanto, segundo o que pode nos trazer tal reflexão, em simplesmente enumerar o déficit e propor a construção de habitações; a questão qualitativa, fundamental para a validade de um projeto no tempo, passa pelo conhecimento que o modo como construímos e habitamos é antes de tudo o modo de estarmos no mundo. Re-estabelecer uma ligação rompida entre o nós e a essência das coisas que nos rodeiam, ligação esta que é, no fundo, uma ligação com a nossa própria essência, torna-se para Heidegger uma questão fundamental.
O habitar não se limita a uma habitação, no sentido de uma casa ou de um abrigo, mas estende-se na medida em que o espaço construído é palco para a vida. Habitamos a casa, a rua, o bairro, a cidade, habitamos também os espaços que surgem das relações que estabelecemos com os outros, habitamos nossos pensamentos e sentimentos, medos e aspirações. Habitar é a nossa forma de estar no mundo e a partir desta forma construímos a realidade que nos circunda. Deste modo poderíamos afirmar que a finalidade de todo construir é habitar.
Mas se da forma mais óbvia tomarmos a relação entre construir e habitar como uma relação meio-fim, Heidegger irá nos alertar que isso não é suficiente se desejarmos compreender suas relações essenciais. E será na busca daquilo que ele chama do vigor essencial de habitar e construir que ambos se apresentarão nas suas relações e significados mais profundos.
O meio de acessar o vigor essencial de alguma coisa está, segundo Heidegger, na própria linguagem que a representa. Isso porque a nossa relação com as coisas permanece habitualmente em um nível cotidiano, imediato e superficial. Ao nos contentarmos com um modo habitual de compreensão vela-se a nós a natureza essencial das coisas; o que temos não é ainda de fato uma compreensão, mas uma pré-compreensão. Decorre desta pré-compreensão um discurso inautêntico que é perpetuado, passado adiante através do modo como nos comunicamos com o mundo e com os outros. O discurso inautêntico é tornado coletivo e perpetuado pelo consenso, a continuidade condicionada do discurso. Assim temos que buscar dentro do inautêntico as reverberações do autêntico por nós mesmos encoberto, trazendo à tona o ser verdadeiro das coisas, e assim fazendo, re-velar em nós mesmos esta mesma autenticidade… leia o texto completo
Faz quase 20 anos que ouvi e me surpreendi pela primeira vez com a voz, o sotaque, o som, a poesia e a contestação da arte de Linton Kwesi Johnson. Mas foi ao folhear a edição clássica de poesia da Penguin Books que vi seu nome e seu poema entre Walt Whitman, William Wordsworth, William Shakespeare, William Blake, Sylvia Plath e tantos outros, que me dei conta de sua importância como artista.
Linton Kwesi Johnson nascem em 1952 na Jamaica. Foi para Londres em 1963 e cursou sociologia na Goldsmiths’ College, da Universidade de Londres. Enquanto ainda era estudante, ele participou dos Black Panthers, ajudou a organizar um workshop de poesia, e desenvolveu trabalhos com o Rasta Love, um grupo de poetas e percursionistas.
Ele assumiu algumas posturas controversas desde que chegou em Londres e tornou-se uma voz ativa na luta contra o racismo. Como um artista visado e um ativista político, ele extravasou uma linguagem rítmica que, apesar dos confins semânticos da editora Penguin, ela abriu suas páginas para ele. Esta instituição, uma das mais britânicas de todas, fez desse escritor descompromissado o segundo poeta vivo da seção dos clássicos modernos.
Ele tem sido considerado pelos britânicos, um ícone, um visionário e poeta, mas essa figura enigmática rejeita esses epítetos como “media tags”. Sobre seu tratamento singular pela Penguin, Johnson permanece “tão surpreso quanto todos. O que eles fizeram foi bem corajoso.” Especialmente porque, em sua própria opinião, “seu trabalho tem sido uma mera contribuição para devolver a poesia para o povo.”
Nos anos 70, Johnson criou poemas políticos nem um pouco dissimulados sobre assuntos que afetavam os jovens negros, e à medida que os distúrbios nas ruas ficavam mais agressivos, o mesmo acontecia com sua poesia. Seus versos documentaram os pontos altos da luta enfrentada por toda vítima da injustiça, incluindo Blair Peach, um professor morto durante uma marcha anti-fascismo em 1979. Em sua poesia, o pessoal encontra o político – ou melhor, enfatiza sua inseparabilidade.
Seu idioma permanece tão orgulhosamente patoá (patwa – idioma jamaicano) como sempre, e seus temas têm sido tanto amplos em seu horizonte político, quanto pessoais em sua introspecção.
Ele viajou o mundo do Japão à África do Sul, da Europa ao Brasil. Seus discos estão entre os álbuns de reggae mais vendidos no mundo. Ele é reconhecido e reverenciado como o primeiro poeta reggae do mundo, e um dos artistas mais originais e únicos. E, diferente de muitos poetas e artistas depois de seu primeiro resplendor de criatividade, Linton Kwesi Johnson ainda tem muito que dizer.
Para ouvir um pouco da força de suas palavras e o ritmo de sua poesia veja o vídeo abaixo, da música Fite dem back, com os versos: we gonna smash treir brains in (vamos esmagar seus cérebros) cause they ain´t got no fink in `em (pois eles não possuem nenhum pensamento dentro deles)
wi mawchin out di ole towards di new centri (nós estamos marchando do velho em direção ao novo século)
arm wid di new technalagy (armados com a nova tecnologia)
wi gettin more an more producktivity (estamos ficando mais e mais produtivos)
some seh tings lookin-up fi prasperity (alguns dizem que as coisas parecem estar caminhando para prosperidade)
but if evrywan goin get a share dis time (mas se todos terão sua parcela desta vez)
ole mentality mus get lef behine (a velha mentalidade tem que ser abandonada)
wi want di shawtah workin day (nós queremos um dia mais curto de trabalho)
gi wi di shawtah workin week (dê-nos uma semana mais curta de trabalho)
langah holiday (feriados mais longos)
wi need decent pay (necessitamos de pagamento decente)
more time fi leasha (mais tempo para preguiça)
more time fi pleasha (mais tempo para prazer)
more time fi edificaeshun (mais tempo para edificação)
more time fi reckreashun (mais tempo para recreação)
more time fi contemplate (mais tempo para contemplar)
more time fi ruminate (mais tempo para digerir)
more time (mais tempo)
wi need (precisamos)
more (mais)
time (tempo)
gi wi more time (dê-nos mais tempo)
a full time dem abalish unemployment (um tempo pleno e abolir o desemprego)
an revahlushanise laybah deployment (revolucionar a distribuição de trabalho)
a full time dem banish ovahtime (um tempo pleno e banir a hora extra)
mek evrybady get a wok dis time (façam todos terem emprego desta vez)
wi need a highah quality a livity (necessitamos uma maior qualidade de vida)
wi need it now an fi evrybady (necessitamos agora e para todo mundo)
wi need di shawtah workin year (necessitamos um ano de trabalho mais curto)
gi wi di shawtah workin life (dê-nos uma vida mais curta de trabalho)
more time fi di huzban (mais tempo pra seu marido)
more time fi di wife (mais tempo pra sua esposa)
more time fi di children (mais tempo para suas crianças)
more time fi wi fren dem (mais tempo para amizade)
more time fi meditate (mais tempo para meditar)
more time fi create (mais tempo para criar)
more time fi livin (mais tempo para viver)
more time fi life (ais tempo para a vida)
more time (mais tempo)
wi need more time (necessitamos mais tempo) gi wi more time (dê-nos mais tempo)
Que descanse em paz
Enfim
O poeta que dela nos retira.
Que a intensidade leve
Enfim
O poeta que a ela nos convida.
Que fechem teus olhos (cheios de sentido)
Enfim
Cansados e encantados,
Oh poeta que tornou os nossos
Sem fim…
Exquema
Morreu dia 17/05/2009 o poeta uruguaio Mario Benedetti, um dos grandes nomes da literatura latino americana. Autor de uma vasta obra literária, foi reconhecido internacionalmente na década de 60. Não importa se falando de política ou amor, eles recordam e renovam nossa própria humanidade.
No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.
Não permaneças imóvel
à beira do caminho
não congeles o júbilo
não desejes sem vontade
não te salves agora
nem nunca
não te salves
não te preenchas de calma
não reserves do mundo
só um canto tranqüilo
não deixes cair as pálpebras
pesadas como sentenças
não permaneças sem lábios
não te durmas sem sonhos
não te penses sem sangue
não te julgues sem tempo
mas se
apesar de tudo
não podes evitar
e congelas o júbilo
e desejas sem vontade
e te salvas agora
e te preenches de calma
e reservas do mundo
só um canto tranqüilo
e te deixas cair as pálpebras
pesadas como sentenças
e te secas sem lábios
e te dormes sem sonhos
e te pensas sem sangue
e te julgas sem tempo
e permaneces imóvel
à borda do caminho
e te salvas
O Universo, que foi criado em três, foi dividido em dois. E tiraram o recheio! Ficaram dois pães sem o hambúrguer… que, afinal, é o que dá o sentido, o nome e sabor ao sanduíche! Retiraram o degradê e ficamos em preto e branco. Sem nada entre eles. Sem o degradê, como podemos saber que não existem separações, não existem limites? Como podemos recordar que há somente uma única cor, que se multiplica em infinitas expressões? Corpo ou espírito, mundo ou céu… e nada entre eles, e nada que os conecte? Apegos ou sacrifícios, imersão ou reclusão, profano ou sagrado…. e nada entre eles?!!! Talvez essa seja a marca da ignorância de nosso tempo. Essa pobreza de nuances, de sutilezas, de símbolos e significados. Porque o sim-bólico (symbolo – do grego) agrega, une, revela… e o dia-bólico (diabolo – do grego) separa, quebra o que estava unido. Não uma entidade diabólica, mas a ignorância sem imaginação, que é incapaz de contemplar significados, de estabelecer relações, restituir os símbolos e penetrar a realidade.
Somente a Imaginação Criativa pode revelar o que está oculto. Imaginação que confere forma ao inteligível, imagem à ideia. Une novamente o que a ignorância separou. Imaginação que também penetra a forma e revela o universo infinito que a antecede e que a contém.
A fantasia cega, a imaginação ilumina, e nos iluminando, ilumina o mundo. Assim, rompe as semelhanças e restitui a imagem, que expressa a idéia, reflexo de sua perfeição. Sem ela o Universo permanece congelado, separado, sem recheio, sem significado, sem sabor.
O poema a seguir é o último do livro Kitab al-Tajalliyat, de Ibn Arabi. A tradução escrita foi feita a partir daquela que consta na interpretação de Henry Corbin, fonte confiável para os desconhecedores da língua árabe. Porém, além das diferenças notáveis desta bela interpretação em vídeo, temos a satisfação de ver os versos ganharem vida numa bela composição de música, voz e imagem.
A Teofania da Perfeição
Ouve, Oh querido amado!
Eu sou a realidade do mundo, o centro da circunferência,
Eu sou as partes e o todo.
Eu sou o propósito estabelecido entre o Céu e a Terra,
Eu criei percepção em ti somente com o intuito de que seja o objeto de Minha Percepção.
Se então tu Me percebes, percebes a ti mesmo.
Mas tu não podes Me perceber através de ti.
É através de Meus Olhos que tu Me vês e vês a ti mesmo,
Através de teus olhos tu não podes Me ver.
Querido amado!
Eu tenho te chamado tão frequentemente e tu não Me tens ouvido.
Eu tenho Me mostrado a ti tão frequentemente e tu não Me tens Visto.
Eu tenho exalado minha fragrância tão frequentemente e tu não Me tens sentido,
Alimento saboroso, e tu não Me tens provado.
Por que não Me podes alcançar através do objeto que tocas
Ou Me respirar através de doces perfumes?
Por que não Me vês? Por que não Me escutas?
Por que? Por que? Por que?
Para ti Meus encantos superam todos os outros encantos,
E o prazer que Eu te propicio supera todos os outros prazeres.
Para ti eu sou preferível a todas as outras boas coisas,
Eu sou Beleza, Eu sou Graça.
Ama-Me, Ama a Mim somente.
Ama a ti mesmo em Mim, em Mim somente.
Une-te a Mim,
Ninguém é mais íntimo que Eu.
Outros te amam por seus próprios interesses,
Eu te amo por ti mesmo.
E tu, tu foges de Mim.
Querido amado!
Não Me podes tratar bem,
Pois se te aproximas de Mim,
É porque Eu me aproximei de ti.
Eu sou mais próximo de ti que tu mesmo,
Que a tua alma, que a tua respiração.
Quem entre as criaturas
Te trataria como Eu te trato?
Eu tenho ciúme de ti, por ti,
Não quero que pertenças a mais ninguém,
Nem mesmo a ti próprio.
Sê Meu, sê para Mim como tu és em Mim,
Apesar de que tu nem mesmo percebes isso.
Querido amado!
Vamos em direção à União.
E se nós encontrarmos a estrada
Que conduz à separação,
Nós destruiremos a separação.
Vamos de mãos dadas.
Entremos na presença da Verdade.
Que Ela seja nosso juiz
E imprima Seu selo sobre nossa união
Para sempre.
“Qualquer explicação filosófica sobre Qualidade será tanto falsa quanto verdadeira precisamente porque é uma explicação filosófica. O processo da explicação filosófica é um processo analítico, um processo de quebrar algo em sujeitos e predicados. O que quero dizer (assim como todo mundo quer) pela palavra ‘qualidade’ não pode ser quebrado em sujeitos e predicados. Isto não é porque Qualidade é algo tão misterioso, mas porque Qualidade é muito simples, imediata e direta.” – Robert M. Pirsig
Já faz um bom tempo que eu li Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert Maynard Pirsig. Ele, junto com outros autores como Richard Bach e Antoine de Saint-Exupéry, tiveram na minha adolescência grande influência sobre o que ocorreria nos anos seguintes, agindo como sementes de uma inquietação espiritual e minha crescente atração pelo mistério. Pirsing, para mim, se destacou pela profundidade e densidade teórica de seu livro, assim como pela idéia (quase) libertadora de viajar de motocicleta pelo imenso território americano. O que por um lado ao meu intelecto mal treinado significou um grande esforço, por outro lado, para meu fervor juvenil, foi lenha seca para a fogueira de um anseio que eu já sentia, ainda que não o compreendesse. Ativava-se simultaneamente em mim, pela Qualidade deste livro, o “clássico” e o “romântico”.
Como o próprio título sugere, seu livro enfoca a necessidade de superar a barreira artificial erguida como força contraditória entre a denominada ‘visão romântica’ e a ‘visão clássica’.
Se para os românticos prevalece o modo imaginativo, intuitivo, emocional, estético, pelo qual os sentimentos predominam sobre os fatos, para os clássicos prevalece a razão e as leis físicas que moldam o pensamento e o comportamento dos corpos. Se o primeiro encontra sua expressão máxima na arte o último a encontrará na ciência. Partindo-se desta dicotomia deduz-se que viajar de motocicleta é romântico enquanto que concerta-las é algo puramente clássico.
As implicações desta dualidade são profundas e o tema é atualíssimo para os que tem lido autores contemporâneos como Tom Cheetham, Peter Lamborn Wilson e Ken Wilber. Esta dicotomia implica não só na separação entre arte e tecnologia, mas entre espírito e matéria e se origina, segundo Cheetham, num processo histórico de mudança da qualidade de nossa percepção. Esta mudança está associada a um condicionamento cultural cuja origem alguns atribuem ao “penso logo existo” de Descartes, mas que tanto Cheetham como Henry Corbin gostam de localizar numa data bem anterior, no século XII quando prevaleceu, a partir dos escritos de Averróis, a filosofia Aristotélica sobre a Platônica. Na figura logo abaixo, detalhe de uma pintura de Rafael, podemos observar as mãos dos filósofos, Platão aponta para cima e Aristóteles volta a palma da mão para o solo, uma clara simbologia da oposição de seus pensamentos.
Voltemos então para o conceito de “Qualidade” de Pirsig. Esta noção implica em que a máxima socrática “conheça a sim mesmo” é um processo a ser buscado em toda a atividade humana, como por exemplo, na manutenção de uma motocicleta. A “Arte” da manutenção é a “Qualidade” aplicada ao ato. Como falou o próprio Pirsig, “Arte é qualquer coisa que você pode fazer bem. Qualquer coisa que você pode fazer com Qualidade” . E Qualidade é para ele a palavra chave. Com Qualidade, toda a atividade humana é um exercício de meditação. Supera-se aqui qualquer noção preconceitual sobre o mundo como local da corrupção. É nele que colhemos o material de trabalho para a nossa transformação, ele é o laboratório alquímico onde a Qualidade transmutará o denso no sutil. Antes de um processo externo, a transformação do mundo é a transformação do “ser” que percebe o mundo, mudando-se a qualidade da percepção, muda-se o mundo. A Qualidade é a chave que abre a percepção de modo que ela possa perceber o “espírito” em tudo. Pirsig diz: “O Buda repousa tanto sobre uma flor como sobre os circuitos de um computador”.
Qualidade é o dharma hindu, o kaif sufi e a ‘virtude’ dos antigos gregos. Podemos defini-la também com uma terceira força, conciliadora das dualidades, das oposições entre estética e técnica, ou entre espírito e matéria. Unificada pela força da Qualidade uma suposta contradição assume sua real natureza de complementaridade.
Na presença da Qualidade o espírito se materializa e a matéria se espiritualiza na consciência do observador. Não há duas coisas separadas, mas uma gradação da percepção que unirá ou separará de acordo com sua Qualidade. Se na Qualidade se unificam o romântico e o clássico, poderíamos também arriscar a afirmação de que em Sócrates se unificam Platão e Aristóteles.
Disse Pirsig: “Platão é o essencial buscador de Buda que aparece e reaparece em cada geração, se movendo para cima e para baixo através do ‘um’. Aristóteles é o eterno mecânico de motocicletas que prefere o ‘muitos’”. A Qualidade é também, portanto, o fator unificador entre a “unidade” e a “multiplicidade”, entre o “transcendente” e o “imanente”. “A Qualidade não é algo que você acredita, mas algo que você experimenta.”
Alan Moore, o autor de algumas histórias em quadrinhos para adultos que fizeram bastante sucesso, tem um vídeo à disposição que vale a pena assistir. O nome é MindScape. Tem um pouco de tudo, desde física quântica, teorias da informação, conspirações e o papel da mídia até arte e magia. No início ele fala de sua biografia e de seus trabalhos mais famosos, como V de Vingança, Watchmen, Do Inferno e o Monstro do Pântano. Mas, aos poucos ele aprofunda algumas de suas visões de mundo que certamente, fazem dele um dos artistas mais interessantes da atualidade.
Num dos trechos ele faz um paralelo entre arte e magia. Afirma que toda a forma de magia é também uma forma de arte, especialmente a escrita. Se o conjunto certo de símbolos ou palavras for usado, o resultado é a mudança de consciência. Ele afirma que, infelizmente, essa ferramenta hoje em dia está nas mãos da mídia, que manipula a realidade com propósitos questionáveis. “O fato, nos dias atuais, é que este poder mágico degenerou em um entretenimento barato e em manipulação. Atualmente, quem usa a magia para dar forma à nossa cultura são os publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, a magia é usada como um opiáceo, para tranqüiliza-las, para faze-las mais manipuláveis. A televisão, com suas palavras mágicas e slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento.”
Seguindo a tradição da magia, ele faz um apelo no sentido de que as pessoas compreendam que dentro delas existe algo precioso que está sendo obliterado por vários fatores, inclusive a cultura de massas. “Parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência de ignorar seu eu, mas que também parecem ter a urgência de obliterarem-se a si próprias. No entanto, é possível entender o desejo de simplesmente desaparecer com essa consciência porque é muita responsabilidade, realmente possuir tal coisa como uma alma, ou algo igualmente precioso. O que acontece se você a quebrar, ou a perder? Não seria melhor anestesia-la, acalma-la, destruí-la para não viver com a dor de ter que lutar por ela? Creio que é essa a forma com que as pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão, em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e que podem ser vistos como uma tentativa deliberada para destruir qualquer conexão entre nós e a responsabilidade de aceitar e possuir um eu superior e então, ter que mantê-lo.”
Sua mãe foi pianista da igreja em que seus avós eram ministros e seu pai tocava violino. Desde o início a vida de John Coltrane estaria intimamente ligada à música. A significante conexão entre religião e música influenciaria fortemente sua carreira. Em 1955 casou-se com Naima, uma mulçumana convertida que lhe colocou em contato com o Islão, e muito provável que também com o sufismo. Nesta época ele supera seus problemas com o álcool e a heroína.
Revigorado, e inspirado por um despertar espiritual, Coltrane retorna ao Jazz em 1957 e produz a partir de então o seu melhor trabalho. Inicia, paralelamente, uma série de viagens pelo mundo, especialmente África e Índia, em busca de algo descrito por Michael Budds como “um conceito universal unificante de todas as crenças”.
A partir da década de 60 a música se torna para ele mais do que simplesmente música, mas uma experiência religiosa, um modo de atingir a transcendência.
Vejam o relato do estudioso Eric Nisenson após uma apresentação de Coltrane: “Provavelmente não foi mais que uma hora, mas o tempo pareceu parar ou no mínimo se tornou irrelevante; eu pude sentir que o resto da audiência, também, estava capturada por esta impressionante performance… Aqui estava uma performance onde não mais se poderia julgar objetivamente a estética; os sentimentos que se produzia eram próximos ao profundo respeito que se tem a um vulcão ou ao espanto mental de uma revelação religiosa”
Em notas de seu álbum “Love Supreme” Coltrane faz a seguinte afirmação:
“Durante o ano de 1957, eu experimentei, pela graça de Deus, um despertar espiritual que me conduziu a uma vida mais rica, plena e produtiva. Neste período, em gratidão, eu humildemente pedi para que me fosse dado os meios e o privilégio de fazer os outros felizes através da música.”
Em 1965, em seu álbum “Meditations” ele fala sobre elevar as pessoas: “… para inspira-los a realizar mais e mais suas capacidades de viver vidas significativas. Porque certamente há significado para a vida”.
Em 1965 grava “OM”, referindo-se ao som sagrado do hinduísmo que simboliza a força primordial do Universo, contendo trechos do Bhagavad-Gita. Em 1966 junto com o também saxofonista Pharaoh Sanders, em um de seus últimos trabalhos, faz referências ao texto budista do Livro Tibetano dos Mortos e recitam uma passagem que descreve a verbalização primal “om” como um denominador cósmico/espiritual de todas as coisas.
Coltrane estudou a música do mundo acreditando que uma estrutura musical universal que transcendesse distinções étnicas poderia alimentar a linguagem mística da música. Seu estudo de música indiana o levou a concluir que certos sons e escalas poderiam “produzir significados emocionais específicos”. Para ele o objetivo do músico é compreender e controlar estas forças produzindo uma resposta da audiência.
Hoje em dia não é incomum que a mera menção de seu nome evoque uma profunda resposta emocional ou mesmo espiritual a um amante do jazz. Muito dos que conhecem seu trabalho se referem a ele como “visionário”, “profeta” e “santo”. Eric Nisenson, no prefácio de seu livro Ascension: John Coltrane and his Quest, diz sobre ele: “Eu encontrei na música de Coltrane não somente a beleza mas também uma genuína elevação para o espírito”. A palavra quest (busca) demonstra o reconhecimento de que sua música busca algo profundo, em suas palavras: “… ele desejou atingir todos nós no centro mais profundo se nossos seres, para elevar-nos e mesmo mudar-nos”.
Uma curiosidade: Em 1971, John Coltrane foi aclamado santo, pela então fundada Saint John Coltrane African Ortodox Church em São Francisco. Onde os cultos são feitos ao som de uma banda de Jazz que toca suas músicas como orações.
Eu sugiro que assistam este vídeo abaixo de 1961, numa situação ótima, isto é, são dez minutos e meio de música extra-ordinária - portanto assistam quando tiverem tempo para saborear cada nota como se estivessem alimentando a própria alma. E Bom Apetite